O Desvio Calculado do Olhar














Pensemos na seguinte situação hipotética: um homossexual com trinta anos que, por ser incompreendido quando criança [coisa habitual e triste], adotasse a seguinte medida, na vida adulta: “Vou vestir meninos com roupas femininas, e meninas com roupas masculinas, para ‘acabar com o preconceito de gênero e orientação sexual’”. Imaginemos que tal adulto fosse um professor de ensino fundamental, e propusesse tal “experimento” aos seus alunos. Ou, no papel de tio, fizesse o mesmo com sobrinhos e sobrinhas. No caso de ser um pai, poderia pretender adotar tal medida “saneadora” com seus filhos. Que o leitor possa me seguir neste raciocínio enviesado.



O que tal sujeito estaria fazendo, literalmente? Seria sua atitude uma “reparação” para as dores infligidas a ele em sua própria infância? Estaria tal sujeito “cuidando de si mesmo, através dos outros”? Estaria tal sujeito adotando uma “pedagogia profilática”, inviabilizando que “sofrimentos como os seus não se repetissem nessas novas gerações”? Teria ele tal tarefa pedagógica, ou Missão [Com Maiúscula, mesmo]? Tal “sujeito hipotético” poderia dar a si mesmo [e aos outros] qualquer uma dessas explicações. Mas isso não modificaria o fato básico de que ele não estaria fazendo bem a ninguém: apenas jogando sobre os outros respingos da merda que recebeu, e que não conseguiu limpar, ou “matar no peito e driblar para a direita”. Tal comportamento seria perverso [per-verso, “a si mesmo voltado”, enviesadamente] e manipulativo. Sem qualquer vestígio de coloração ético-pedagógica. Não importa o que se diga a respeito do mesmo.



Tampouco importa que algumas dessas crianças se sintam “agraciadas” por tal proposição experimental. Antes de mais nada, porque isso não foi feito em atenção a ela [que fique claríssimo], mas tão somente a ele. Isso foi feito reativamente à sua própria tira biográfica. Nenhuma atenção à individualidade aprisionada de um ou outro eventual Homossexual Jr.



Pensemos numa professora que se enamora de uma menina de 13 anos. Sim. É mais do que plausível que tal criança se sinta agraciada com a “atenção” que lhe seja dispensada: declarações, etc. Molestar não é só “impingir algo a outrem”. A violência/coerção não é um ingrediente obrigatório no uso que se possa fazer de outrem. Muitas crianças poderiam se sentir “honradas”/ “privilegiadas” de dormirem na cama com Michael Jackson, ou de ouvirem de um adulto bem considerado [com ascendência intelectual, prestígio, importância, beleza física, talentos diversos] algo do tipo “eu te amo e, por isso, escolhi você”.



Ora. Ocorre que as escolhas dos perversos são a si mesmo voltadas. A criança é “um dentre os possíveis brinquedos no rol”. Nada de especialíssimo naquela(s) que foram eleitas para tanto. Padrões ou fetiches são “falsas personalizações de escolha”. Como preferir crianças negras, louras ou magras. Como vestir crianças de cinco ou doze anos num joguinho de cross-dressing: isso não faz de nenhuma criança “escolhida” para "o playground perverso do escolhedor" uma “criança eleita” ou “amada”. Isso pode torná-la, no máximo, “um dos brinquedos da vez”.



O perverso que sofreu abusos [morais, emocionais e/ou físicos] na própria infância, tem a perfeita noção do “plano de fundo biográfico” de sua repetição abusiva. E nós temos de ver o “compromisso com a mentira” nessas justificativas todas. Daí eu ter colocado, de forma propositalmente caricata, as possíveis justificativas de um suposto sujeito por mim imaginado, o tal “pedagogo do crossdressing infantil”. Essa figura foi inventada, para trazer à flor da exposição o que de patético e trágico [e perverso] existe nas possíveis alegações apresentadas às práticas do dito cujo. Ou da dita cuja.



Da mesma maneira que podemos enxergar a dinâmica das neuroses como no jogo dialético básico freudiano de “desejo-repressão”, podemos enxergar a face-contraface de “medo-mentira” em atuações neuróticas, perversas e psicopáticas. Podemos ver em Daniel Gottlob Moritz Schreber, já citado por mim dois capítulos atrás, um “excelente pai”, como o fez Freud. Sim, aquele mesmo que sistematizava uma educação com controles posturais, aparatos ortopédicos e aspiração a que a criança não distinguisse as “sutis” injunções do pai de suas próprias escolhas. De preferência, obedecendo, desde bebê, ao mais leve olhar de censura do genitor-missionário. “Sem caprichos” [por parte do bebê, frise-se]. O projeto de pedagogia ortopédica do Dr. Schreber me faz lembrar a primeira idéia insana de Joseph Kallinger , famoso serial killer biografado por Flora Rheta Schreiber que imaginava curar a si mesmo e ao mundo com palmilhas ortopédicas. Sua primeira experiência malfadada neste sentido se deu com quatro hamsters que, naturalmente, não podiam usar palmilhas. Em não podendo, Joseph Kallinger os fez andarem numa roda-em-movimento-perpétuo até a morte por exaustão. Matou o primeiro, o segundo, o terceiro e o quarto hamster, talvez imaginando que ações idênticas pudessem produzir efeitos diversos... [Os hamsters aprendem a não repetir ações que lhes causem choques...; os humanos, insistem]. O projeto educacional do Dr. Daniel Gottlob Moritz Schreber fracassou com todos os filhos, mas o “pai excelente” não podia assumir seu erro para si mesmo. Negação da mentira. Medo de “rasgar a tese com premissas falsas”. De medo e mentira são construídas teias demasiado humanas, que beiram [ou transbordam] o desumano.


“Não, não há erro que prejudique a prova do Enem”. Eis a mentira institucional. “Não houve falhas estruturais-operacionais que causassem tal cratera no metrô, matando x pessoas. Foi tudo feito ‘dentro da legalidade’. Os contratos o provam”. “As fitas que mostram meu cliente atirando na vítima foram apresentadas de forma não-protocolar”. Legalidade, por vezes, é um eufemismo para “mentira socialmente sancionada, com papel timbrado”. Um diretor de escola é avisado sete vezes sobre o assédio de uma professora sobre uma aluna. Toma medidas pouco efetivas, “protocolares” [uma transferência de sala, por uma semana]. Depois, flagrada a menina no motel, diz “nem poder imaginar o que se passava”. Os donos do motel também não podiam imaginar, of course. Outra garota é tirada de dentro de um porta-malas, desacordada, por um marginal sem camisa. Menor de idade,a moça. É estuprada no quarto, e o marginal sai [filmado] do quarto e do motel, deixando ali a menor. Os funcionários do motel “nem podiam imaginar”. Por isso, eu gosto de dizer que, no mais das vezes, “olhos vendados são olhos vendidos”. “Que moeda te comprou: medo, suborno, benesses enviesadas"? Parece-me uma boa pergunta a ser feita diante de tais “vendas”.



Há abusos sexuais nas famílias. Sempre houve. Há maus tratos infantis. Sempre houve. Há bullying nas escolas. Sempre houve. Diante da quantidade de casos apresentados, e da exemplar gravidade de muitos deles, ouve-se a lenga-lenga do “eu não podia sequer suspeitar” (sic). Quando Jeffrey Moussaieff Masson apontou que a leitura de Freud sobre fantasias edípicas desconsiderava uma quantidade de abusos factuais de crianças, o que fez a comunidade freudiana ficar tão chocada? A conspurcação da “elegância da teoria” do Pai Fundador? A “pobreza” da “literalização” dos fatos psíquicos de pessoas, de fato, vitimizadas, por uma sofisticada hermenêutica que pretende abolir a palavra “vítima” do vocabulário, até [e, sobretudo] pelo fato de sua existência colocar em cheque a cômoda cegueira coletiva? Por que o esperneio quando se aponta que o Pai Fundador poderia estar escamoteando fatos? [Pai Fundador/Escamoteador]. Qual o problema com a denúncia de Jeffrey Moussaieff Masson? Qual o problema dela ser uma denúncia moral? Qual o problema de se avalizar os métodos pedagógico-ortopédicos exemplarmente fracassados de Daniel Gottlob Moritz Schreber? Que moeda te compra, ó fervoroso e indignado discípulo freudiano? Repito a pergunta feita acima, para os "gerentes de motel".




Há bullying nas escolas, e agora se precisa fazer uma “cartilha” [um protocolo], que conduza os olhos para o que eles já viram [ah, sim: mas “reprimiram”...]. Pesquisas já demonstram o óbvio: pais não gostam que seus filhos convivam com crianças “deficientes” [os "losers", os perdedores de amanhã, segundo uma leitura Darwiniana da vida]. Isso já se sabe. Antes de raça e orientação sexual, sempre houve preconceito e discriminação com cegos, aleijados, mancos, portadores de paralisia cerebral, raquíticos, caolhos, corcundas, anões. Procurem pesquisas sobre o ranking de preconceitos nas escolas públicas. O menino que baba e fala errado, o disléxico, eventualmente o menorzinho e mais novo [magro e fraco] que tira notas altas [o diferente pelo déficit físico, mas não “condenado darwinianamente ao fracasso”...]. O leitor deste blog verá que preconceitos de gênero, cor/raça e orientação sexual vêm abaixo dessas questões primeiras [ficam atrás de “idade”, “origem social”/ “rua, bairro que mora”, etc.]. E precisam de cartilhas! As escolas levam crianças a playcenters, parquinhos, zoológicos e afins. Quantas levam as crianças a orfanatos, AACDs, APAEs, hospitais com portadores de doenças como paralisia cerebral? Quantas escolas promovem discussões sobre bullying, sobre deficiências, sobre eventos como “o incêndio do índio por adolescentes que achavam que ele era apenas um mendigo”? Quantas escolas falam sobre doenças estranhas, como a Síndrome Cole-Carpenter [dos ossos quebradiços], em vez de “desviarem o olhar” pelas dezenas de olhares que zombam do colega que fraturou os membros oito vezes ao longo do ano? Há algo de muito errado com esse olhar social médio: escolar, familiar. Medo do trabalho que é construir essa urdidura social que abrace criança-lar-escola, medo de falar do difícil, de apontar as raízes sócio-culturais da exclusão [e eleição] dos bodes expiatórios darwinianos de sempre [vide os infanticídios culturais das tribos indígenas, alentados por antropólogos babacas] e outras que tais. Medo e mentira.



Há medo e mentira nas vítimas que se tornam algozes, também. É claro. A moeda tem duas faces [os poliedros têm muitas...]. Se atentarmos para alguns biógrafos de assassinos molestados na infância [Gitta Sereny, biografando Mary Bell; Flora Rheta Schreiber biografando Joseph Kallinger], vamos ver o quanto eles “edulcoram” os atos de seus biografados. Não, Flora Schreiber. Sob nenhum aspecto o Sr. Joseph Kallinger era um “sujeito adorável”, como você quis ver [e disse à sua mãe biológica], a despeito das poesias e calor humano que possa ter apresentado a você. Conheço um monte de gente que sofreu maus tratos muitíssimo mais graves e não matou ninguém [nem mutilou] para solucionar seus problemas. Ou a despeito de tê-los. No que diz respeito a Mary Bell, que assassinou a primeira criança perto de fazer onze anos, “imaginando que ela iria acordar depois” [como sua mãe e os clientes dela, que a asfixiavam em programas sado-masoquistas, desde os quatro anos, e ela recobrava a consciência], isso não justificaria seu prazer em visitar o caixão do menino dias depois, suas idas à casa da mãe do assassinado, seus risinhos fora de contexto, e o assassinato da segunda criança dois meses depois [sim: ela já sabia que essa não retornaria à vida!], e sua impossibilidade de esclarecer o episódio da segunda morte ser "um teste". Isso, além do fato de deixar ali sua assinatura M gravada com lâmina/ tesoura no abdômen da vítima [orgulho autoral!], nem alivia-lhe a culpa a tal presença [mas não co-autoria] de sua amiga Norma Bell [nenhum parentesco], de treze anos, no episódio. Ela mesmo, ao justificar [já adulta e mãe!] que era a parte mais forte na parceria, porque “a existência do fraco lhe punha na posição de força”, já mostra seu circunlóquio elíptico-perverso na pseudo-justificativa. Da mesma maneira que, ao narrar, também já adulta, que a primeira vítima, de três anos, não correu ou gritou “antes dela estrangulá-la”, acaba, defensivamente, co-responsabilizando a vítima. Processo análogo foi operado pelo raciocínio enviesado [alegadamente psicótico] de Joseph Kallinger ao justificar como matou a enfermeira Maria Fasching, após ela se negar a arrancar a dentadas o pênis de um amigo seqüestrado por Joseph Kallinger e seu filho Michael de treze anos.



Vamos a essa curta passagem de sua biografia:



- “Flora, Maria Fasching ordenou sua própria morte. Ela me disse: “Mate-me. Não me importo em ficar viva”, com uma firme convicção. Tenho uma sensação muito estranha a respeito disso. Ela tinha problemas, alguma perturbação profunda. A vida dela não era completa, Flora. Ela não queria viver. Se você pensar bem, verá que eu tenho razão.

Chocada retruquei: - Joe, será que você não percebe que ela provavelmente estava dizendo que preferia a morte a ter que arrancar um pênis a dentadas?


-Não, não, insistiu Joe. – Ela não queria viver. Ordenou sua própria morte. Se ela tivesse dito qualquer outra coisa, implorado, não teria acontecido daquela maneira, não teria acontecido naquela hora. [Grifos da autora]. Do jeito que foi, a ordem dela ligou a chave [grifos meus], e comecei a esfaqueá-la logo depois de entrarmos no porão.


Joe fez uma pausa e disse: - Ela me desobedeceu e estragou completamente meu plano de matar todas as pessoas daquela casa. Se tivesse feito o que eu mandei, teria sido morta da maneira como eu ia matar as outras pessoas. Todos eles tinham que morrer”. [“O Sapateiro: A Anatomia de um Psicótico”, pp. 334-335]"


Já basta.




Joseph Kallinger teve uma progressão em seus delírios. Quando ele acordava seus filhos para recolherem lixo nas madrugadas, e depois os torturava em seu porão, quando ele machucou sua filha com uma faca na virilha, quando ele se casou dependendo de segurar um punhal para manter a ereção [com fantasias sádicas], de tudo isso ele teve consciência. Mesmo doente, poderia nunca ter se casado e optar por não ter filhos [um dos quais ele matou de forma bárbara, e o outro cooptou como parceiro de crime]. Tudo isso estava ao alcance da escolha de Joseph Kallinger.



Partindo de sua infância monstruosa [conheço bem piores], ele optou por ir levando à frente sua impostura social [inclusive relacionamentos amorosos], “torcendo” para que tudo desse certo lá adiante” [medo-mentira, como complemento à clássica equação desejo-repressão-retaliação], fazendo “vista grossa” ao potencial de dano que ele mesmo conhecia em si mesmo. E teve chances e chances de se abster, no mínimo. E procurar socorro, assumindo outro estilo de vida, e não como “pai de família” de sete filhos. E pela declaração colocada acima [quando já condenado à prisão perpétua] à mulher que ela chamava “mãe” [a biógrafa Flora Rheta Schreiber], vemos que ele não aprendeu nada. Durante muito tempo, sempre esteve ao alcance de seus olhos VER que impingia a terceiros sofrimentos análogos aos que sofrera na infância. Ou piores. Essa dimensão do humano [optar pela atuação da ira represada, fingindo não admiti-la] não pode ser redimida por circunlóquios espiralados de auto-justificativas, nem por biógrafas “bem intencionadas”. Da mesma maneira que dividir os lucros com Mary Bell pela sua biografia, “Gritos no Vazio”, é um ato espúrio.



Para além das conjunturas e delírios [no caso de Kallinger, é indiscutível a existência de delírios], estamos lidando com personalidades criminosas, irrefutavelmente criminosas, com grande noção do que causaram. A justificativa messiânico-diabólica de Kallinger só demonstra um alinhamento-identificação grandiosa com o Numinoso Sombrio, como uma espécie de Avatar da Justiça Universal, um "duplo" do Deus Vingador. Como essa eleição não é necessária em toda esquizofrenia paranóide [pode-se estar no outro polo, que não o da Vingança Universal, como no caso de Daniel Paul Schreber], além do fato deste preservar suficiente contato com a realidade para trabalhar, manter família, não lesar a si mesmo [só aos outros], etc e tal, temos nesse conjunto de traços caracterológicos um distúrbio de fundo: um transtorno de caráter. Nada de culpa. Nada de reparação. Só medo-orgulho e mentira. Com capacidade de manipular o ambiente, capacidade de preservar áreas extensas dos vínculos relacionais livres da expressão do delírio [um "esquizofrênico paranóide brabo" não consegue tal proeza], e outras capacidades funcionais que tornam Joseph Kallinger legitimamente imputável por seus crimes, ainda que devesse [sim] também receber tratamento medicamentoso na cadeia, para amainar alguns de seus sintomas. Isso foi feito, até certo ponto. Seu perfil caracterológico nunca se beneficiou dessas medicações, e seu discurso auto-justificatório sempre se manteve intacto. Pode-se ouvir até trecho de entrevista do mesmo no You Tube. Vejo nele um psicopata surtado. Ou seja: um indivíduo com um transtorno de personalidade de fundo e manifestações paranóides. Isso não o isenta de culpa.



O livro de Flora é didático no sentido de ilustrar, exemplarmente, o peso dos maus tratos infantis na (de)formação de uma personalidade. É um dedo na ferida dessas tantas más famílias. Mas alinhar-se com o mal ou não depende de percurso, conjuntura e escolha. Sobretudo em caracteres suficientemente preservados do "engolfamento no delírio", como foi o caso de Joseph Kallinger. Kallinger gostou de atuar seu mandato mítico, e de dar vazão à sua raiva. Eis o fulcro da questão.



Quanto ao dedo na ferida da hipocrisia social, seu livro é tão útil à sociedade quanto a exposição na mídia do caso do engenheiro eletricista austríaco, Josef Fritzl, que confessou ter mantido aprisonada a própria filha por 24 anos em um porão, ter tido sete filhos com a mesma, sem que sua mulher [nem outra pessoa qualquer] "nunca desconfiasse de nada". Joseph Kallinger foi tão mau caráter quanto Josef Fritzl, que também achou sua linha de explanação lógico-enviesada para "justificar" seus atos [inclusive o de "proteger sua filha do mundo"!]. No entanto, ele também demonstra sua consciência [e prazer] em causar dano: "Eu sabia que Elisabeth não queria que eu fizesse o que estava fazendo com ela. Sabia que a estava machucando. Aquilo era como um vício" [Jornal O Estado de São Paulo, 8 de maio de 2008].


Ambos são psicopatas.



Joseph Kallinger faleceu em 26 de março de 1996. Josef Fritzl cumpre prisão perpétua desde 19 de março de 2009. Mary Bell foi solta em 1980, aos 23 anos de idade, e vive com sua identidade preservada [trocou de nome por autorização judicial]. Quem quer que leia a descrição do que ela sentiu em seu primeiro assassinato, verá o quanto foi necessário impedir-lhe que ela "tomasse gosto pela coisa". A ingênua Gitta Sereny lhe pergunta, durante a lembrança do assassinato do primeiro garoto, Martin Brown, se ela se lembra de sentir raiva. Narrando tudo como uma reminiscência em tempo presente, ela diz:



"Não estou com raiva. Isso não é um sentimento... é um vazio que vem... acontece... abre...é um abismo... está além da raiva, além da dor, é como um tecido de algodão e lã preto..."





Feridos narcísicos podem sentir as "lâmias" e o "vampiro" como presenças de fundo. Vou citar um exemplo prosaico: alguém sentia que uma força o impedia de se concentrar quando tinha de dar uma entrevista a alguém. Em sonho, essa presença aparecia como um vulto não-humano na janela. Um morcego voando, aparentemente. Pois bem, no caso de Mary Bell, a ingênua Gitta lhe pergunta, logo após a narrativa acima, quando seu choro [o de Mary] cessou [grifo meu]:


- É alguma espécie de excitação? [Esse tecido de algodão e lã preto...].


-Não, não, não é, é um sentimento que suga...


[...]



-Mas o que havia? [Grifo da autora]. O que você sentia?




-Quieto. Tudo estava muito quieto, muito calado, eu não percebia barulho em lugar nenhum, dentro de minha cabeça, fora, nem de ninguém. Martin... ele... isso estava... muito quieto". [Gritos no Vazio: pp 384-385].



Para quem tem dificuldade de visualizar [uma visualização tátil, até] o que signifique o Numinoso Sombrio [para muitos, a expressão soa mais esotérica do que o Deus de Gilberto Gil], eis uma de suas expressões mais eloquentes. Destaco um aspecto importante, no caso do "sonhador com o vampiro": ele não se "alinhou com o silêncio negro", mas o contemplou como um estorvo, até superar a "linha de tensão" com "aquilo que suga". Isso é um posicionamento egóico. Dois meses após esse assassinato, Mary Bell cometeu um segundo, mais requintado em sua expressão perversa, no mesmo "silêncio interior". Alguém precisava detê-la, por uma causa singela: ninguém pode "resolver seus problemas" matando pessoas.


Como também [para voltar ao meu primeiro exemplo patético-hipotético], ninguém pode lidar com suas feridas pessoais de gênero [ou de orientação sexual], "brincando de cross-dressing infantil".













Marcelo Novaes








Bibliografia sugerida:




Masson, Jeffrey M. (1984). Atentado à verdade: A supressão da teoria da sedução por Freud (A. M. Sarda, trad.). Rio de Janeiro: Livraria José Olímpio Editora.


Masson, Jeffrey M. (1990). Final Analysis: The Making and Unmaking of a Psychoanalyst. New York: Addison Wesley/ Perseus Publishing.



Schreiber, Flora R. (1985). O Sapateiro: A Anatomia de um Psicótico. Rio de janeiro: Imago.



Sereny, Gitta. (2002). Gritos no Vazio: A História de Mary Bell. Belo Horizonte: Guttenberg.