Andando sobre as Águas, até o Chão-Possível














A proscrição e as invasões ambientais eliciam no sujeito invadido um “olhar ao lado”, um “segundo olhar” [um “olhar-zelador-e-testemunha-de-si-mesmo”] muito precoce. Este olhar observa o próprio sujeito em seus vários estratos: 1) sua mecanicidade e quase-irrealidade na vida funcional [falso self/persona defensivo-superadaptada]; 2) o isolamento do self encapsulado-defendido das falhas ambientais; 3) a expectativa ou catalogação expectante dessas mesmas falhas que o ameaçam. O “halo” de toda essa observação cindida é de “temor-vígil-precoce”. Difícil superestimar a cisão e ansiedade depositadas em todo este contexto. Este é o ponto de partida do ferido narcísico [ou grande ferido] que depende de fracassos ambientais quanto ao olhar/reconhecimento de si mesmo, suporte e acolhimento ao seu self, muito aquém [na base de sustentação] de qualquer fantasia infantil impressa pela voracidade pulsional do sujeito-em-formação, ou pela ativação arquetípica de “pais sombrios, sem nenhum contexto que justifique esta mesma ativação”. Isso, simplesmente, não ocorre. Mau suporte ambiental [parental, escolar, religioso-institucional, etc] evocam essas protofantasias, essas imperiosidades pulsionais [agressão-voracidade] e esses escuros numina. Ferenczi estava certo sobre os psicanalistas de antanho [mas não só...] subestimarem o papel do trauma em favor das fantasias erótico-agressivas da criança. Isso está sendo repensado e corrigido por muitos winnicottianos de hoje e, desde antes, pelos que conheceram o trabalho de Fairbairn e Balint. Um texto de autora brasileira contemporânea que reinscreve, de modo bastante peculiar e com assinatura própria, essa problemática [recuperando e realinhando as variáveis da polêmica] é o belo “Dos que Moram em Móvel-Mar”, de Fátima Flórido Cesar, cuja experiência clínica flagra estes “pacientes difíceis”, massiva e precocemente feridos, que parecem não habitar o chão firme-e-comum dos neuróticos. Sim: eles moram em chão flutuante, íntimos que são das angústias impensáveis [agonias primeiras e indizíveis] conceituadas por Winnicott, quais sejam: queda livre infinita [bem próximo à vertigem ontológica, nos moldes propostos por Pierre Teilhard de Chardin]; cisão sentimento-do-eu/percepção-do-corpo; sensação de impossibilidade absoluta de comunicação/relacionamento [incomunicabilidade e absoluta solidão ontológica]; irrealidade do mundo e do ser [a sombra palpável de uma inexistência do eu e do mundo]; funcionamento intelectual ex-cindido, ou desincorporação do pensamento. Nas situações que a clínica contemporânea classificou como “transtorno do pânico”, o sujeito bordeja essas angústias impensáveis, reatualizando seu maximum de desamparo, onde até habitar o corpo parece uma impossibilidade [o que dirá “habitar o mundo”!]. As situações de pânico, no seu aparente “de repente”, trazem a inscrição deste desamparo profundo, arcaico, primeiro.



Outra percepção interessante [e pouco ortodoxa, em se tratando de psicanalistas] é o fato de Fátima Florindo Cesar optar por não discutir, em seu texto clínico, a problemática sexual de seus pacientes, por considerá-la, nestes casos de “pacientes difíceis”, um mero palco onde eles atuam/ensaiam/revivem/atualizam suas questões de identidade, preenchendo vazios com o erotismo, para fugirem do sentimento de “nada serem”. Bingo. Na mosca. Difícil essa sutileza de percepção clínica naqueles formados para entenderem a dinâmica edípica como regendo o mote do sofrimento humano, como “frustração das pulsões eróticas que demandam o objeto sujeito à interceptação/interdição por outrem” [objeto incestuoso, objeto-que-me-recusa, objeto interditado às minhas pulsões]. No caso dos grandes feridos, a questão é outra, antecede a esta e subjaz a esta. Trata-se do sentimento de caber no próprio corpo ou poder-ser através do outro, outro este erogeneizado para preencher o próprio sentimento de “vazio ontológico” ou “não-self” [já que há cisões várias e um self encapsulado/inacessível que aspira emergir à vida de relação]. Isso é muitíssimo distinto da dinâmica pulsional edipiana, que já descrevi em capítulos anteriores deste ensaio, e que é exaustivamente repisada pelos psicanalistas clássicos ou “puro-sangue”. Esmiuçar, à exaustão, esta outra dinâmica [a do grande ferido: do ferido massivo e precoce, do proscrito/ “outsider” desde a infância] é o propósito deste trabalho, por isso irei amplificar o tema, mais e mais, retomando-o em matizes progressivamente mais nuançados.



Este mesmo equívoco de “minimização da falha-de-origem” [a “falha básica” no dizer de Balint] poderíamos apresentar em relação aos junguianos desavisados e devotos da “autonomia dos arquétipos”, como se tal “autonomia pairasse por sobre todas as circunstâncias de vida”. Tais clichês [muitas vezes resultantes do “medo de ver a magnitude do sofrimento biográfico do outro”] tentam descolar duas coisas que não podem ser desatreladas: 1) os “a prioris” da 2) linha-do-tempo-biográfico, pois que todo e qualquer à priori arquetípico se inscreve numa linha biográfica, desde a primeira infância e, sobretudo, nesta etapa da vida. Porque esta é a etapa dos mitos-de-origem relacionados à percepção da própria ferida, que será tomada como ferida sagrada, questão sagrada ou mítica. Esta perspectiva leva em conta mais variáveis do que quaisquer das especulações mito-filogenéticas de autores junguianos [Erich Neumann sendo um protótipo claro dessa perspectiva marcadamente “apriorística”], porque inclui, entre outras capacidades clínicas, maior acurácia no “ver e dimensionar a dor precoce e quase inumana [termo utilizado por Fátima Florindo para falar de seus “pacientes difíceis”] vivida na biografia [em seus inícios, ou desde os inícios] de tais feridos narcísicos”.




As implicações deste “ver diferenciado” são clínicas: na qualidade e sutileza da captação das vivências transferenciais/contratransferenciais, por exemplo. Aqueles que preferem fazer tabula rasa das falhas ambientais [escola, família, cultura], além de temerem pisar no terreno movediço [“móvel-mar”] da desestabilização de nossas certezas instituídas culturalmente [o que vale dizer: questionarem fundo a correção ou nobreza de nosso modus vivendi social médio, incluindo a família, escola, igreja e modelos clínicos “normatizantes-adaptativos”], receiam que admiti-lo seria prejudicial ao paciente. Explico melhor: se o paciente deveras sofreu um quantum incomum de dor, não haveria nada a fazer senão justificá-lo em sua tragédia. Nada mais ingênuo e longe da verdade do que tal pressuposto enviesado sobre a demanda do grande ferido. Há, ao contrário do que alguns imaginariam, a necessidade deste mesmo reconhecimento por parte do analista, para que a transferência se dê nos moldes legítimos desta específica demanda [que não tem nada de edipiana]. Eu poderia recorrer a vários autores para prová-lo [e o farei mais tarde, sobretudo quando explicitar a relação de transferência/contratransferência com estes pacientes nos moldes “Cristo/ Pietá”, ou “Mártir e Testemunha Impotente a (Re)Atualizar o Dano”, como bem explicitou James Grotstein, ao derrubar o Édipo como molde adequado ao que ocorre neste setting analítico mais regressivo ou “arcaico”]. Gestalt-terapeutas já intuíram, há bastante tempo, que a pergunta básica de certos pacientes ao terapeuta seria: “Você sobreviveria psiquicamente à minha família/infância? Em caso positivo: como?!” [Joe Fagan]. Em se tratando dessa demanda/pergunta-de-fundo, muitos analistas temem a presença espontânea da escuta que reconhece, como primeiro dado: “Eu não sobreviveria!”. Eis o ponto cego, quando se quer mantê-lo... E aí...?!, pergunto eu. A questão não é técnica, ainda que transborde em implicações técnicas. A questão é do terror pela palpabilidade das angústias indizíveis [ou agonias “quase impensáveis”], às quais o analista temeria sucumbir se posto no lugar do paciente. Sendo este o caso, melhor faria o analista em não atender tal perfil de paciente, pois estará incapacitado de ajudá-lo, desde a raiz de sua [=dele, paciente] demanda.




Fátima Florindo cita a espontaneidade de Winnicott admitindo a falha maciça vivida pelo paciente em comentários espontâneos e efetivos [não “espontaneístas e ingênuos”] do tipo: “Não sei como você sobreviveu à sua mãe”. Ou, em termos análogos: “Não sei como você suportou sua mãe!”. Como o entendimento do manejo clínico é algo permeado por pruridos e melindres, no caso de analistas burocráticos que não entendem a essência das questões transferenciais para além da assepsia do setting [horários, frequência das sessões, o falso dilema: divã/não-divã, etc e tal], já vou logo avisando: o destemido Winnicott pôde verbalizar uma constatação efetiva que respondia a uma das demandas de certo tipo de paciente [o grande ferido], demanda esta que pode ser sintetizada como a pergunta feita acima: ““Você sobreviveria psiquicamente à minha família/infância? Em caso positivo: como?!” Mas o importante não é dizê-lo, mas reconhecê-lo [quando for o caso] presencialmente na contratransferência. O olhar, a postura, a presença corporal na escuta “banhada” por essa compreensão, atende, perfeitamente, a essa demanda/pergunta-de-fundo do analisando. Fugir disso é deixá-lo só, dependurado num vazio-de-vinculação não-transferencial. É fugir da especificidade da demanda clínica para impingir-lhe outro script, quiçá “edipiano”. Um script, de qualquer forma, mais confortável ao analista. Isso é subverter [perverter!], na origem, a própria função analítico-terapêutica.



Um adendo importante aos mais “ingênuos”: como a clínica não é um “tribunal”, não se trata de condenar pessoas [pais, sacerdotes, professores, abusadores], mas de reconhecer a legitimidade e palpabilidade do sofrimento de quem se feriu/foi ferido. Este é o ponto de partida, do qual não se pode escapar: nevrálgico para qualquer ulterior elaboração/transformação/superação deste mesmo sofrimento. Foi isso que, no conjunto de sua prática clínica [e não nesta ou naquela fala isolada...], Winnicott pôde apreender e trabalhar tão eficazmente, num terreno onde muito poucos souberam andar, nadar, colocar os olhos e as mãos/a fala.










Marcelo Novaes








Bibliografia sugerida:






Balint, Michael. (1993). A falha básica: aspectos terapêuticos da regressão. Porto Alegre: Artes Médicas.



Cesar, Fátima Florindo. Dos que moram em móvel-mar: a elasticidade da técnica psicanalítica. São Paulo: Casa do Psicólogo.



Fagan, Joe. (1975). Gestalt-terapia: Teoria, técnica e aplicacões. Joe Fagan, Irma Lee Shepherd Org. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro : Zahar.




Ferenczi, Sándor. (2011). Obras Completas – Psicanálise (4 volumes). São Paulo: Martins Fontes. 2ª Edição.



Grotstein, James. (2003). Quem é o sonhador que sonha o sonho? – um estudo de presenças psíquicas. Rio de Janeiro: Imago.



Neumann, Erich. (1991). Criança (A) - Estrutura e dinâmica da personalidade em desenvolvimento desde o início de sua formação. São Paulo: Cultrix.




Neumann, Erich. (1990). História da origem da consciência. São Paulo: Cultrix.




Pereira, Mário Eduardo Costa. (2003). Psicopatologia dos ataques de pânico. São Paulo: Escuta.





Sabourin, Pierre. (1988). Ferenczi: paladino e grão-vizir secreto. São Paulo: Martins Fontes.




Winnicott, Donald Woods. (1982). A criança e seu mundo. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.





Winnicott, D. W. (1982). O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas.