Interlúdio: Sobre Saramago e a Bíblia


Tem-se feito muito barulho a respeito de declarações, extremamente sensatas, de José Saramago a respeito do conjunto de livros que costumamos considerar como “Livros Sacros do Ocidente”: a famigerada Bíblia. Como alguém educado para conhecer os ditos livros (tendo tido toda a minha formação de ensino básico e médio no Colégio São Luís, onde ganhei a maioria dos “prêmios de excelência” dados ao longo dos anos como melhor aluno de minha série no conjunto das disciplinas) devo (e posso) me posicionar sobre as declarações de Saramago. O Novo Testamento, conheço inteiro, na íntegra, de cabo a rabo. O Antigo Testamento, conheço-o mais-do-que-o-suficiente. Conheci o “Deus dos Exércitos” em aulas de religião desde o Infantil, com quatro anos de idade, colocado na escola pra conviver com alunos de seis (não havia maternal I, maternal II, etc, progressos pedagógicos ulteriores àquela data...), em aulas de Religião no Externato Assis Pacheco. Sim: desde quatro anos de Idade ouvi os bramidos do Deus do Antigo Testamento... E tenho me dedicado (e muito) a conhecer os textos apócrifos e pseudo-epígrafos da Bíblia (Testamento dos Doze Patriarcas, Enoch, Evangelho de Valentino, Evangelho da Verdade – também de Valentino - , Evangelho de Felipe, Evangelho de Nicodemos: alguns excertos desses textos podem ser lidos no meu blog Simhanada). Tenho-os quase todos comigo.




Vamos resumir algumas das posições do íntegro e ateu José Saramago. Sim: os ateus são divididos em ímpios e íntegros, assim como os religiosos, sem distinção. O critério é exclusivamente ético: O ÚNICO QUE IMPORTA. Betinho era íntegro, como também o é Dráuzio Varella, igualmente ateu. O reino dos Céus é para os íntegros, e ponto: ateus ou religiosos. Repito: o que importa é o legado; o conjunto vida-e-obra. Os valores alcançados de solidariedade, respeito, amor e justiça. O resto é filigrana. Ou balela. Ou contrafação do propósito último das religiões: tornar o homem melhor, eticamente. Quem defende "nominalismos" ("o Nome que eu pronuncio é mais sagrado que o seu", disputa pueril de crianças...) ou "coorporativismos de linhagem" não é religioso: é "burocrata do espírito". É político-corporativo, valendo-se de "tinturas e vernizes de pseudo-espiritualidade" para ocultar sua índole predatório-autocrata. O corolário do assim-chamado-homem-espiritual-burocrata-do-espírito é ser, também, demagogo e tacanho. Tudo o que os verdadeiros "homens de bem", com justiça, desprezam. E Deus, por certo, muito mais.




José Saramago afirmou que “a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana”.



“A Bíblia passou mil anos, dezenas de gerações, a ser escrita, mas sempre sob a dominante de um Deus cruel, invejoso e insuportável. É uma loucura!”, criticou, em Penafiel, numa entrevista à agência Lusa, o Nobel da Literatura de 1998, para quem não existe nada de divino na Bíblia, nem no Corão.



Como as falas de Saramago podem ser achadas em sites de busca e vídeos da Internet, basta-me citar o essencial.



Vamos ao meu próprio ponto de vista.


Qualquer pessoa que pense atribuir “Origem Divina à Bíblia” precisaria considerar uma série de coisas:



1) Todo o conjunto de livros que foram expurgados da Bíblia pelo Concílio de Nicéia, no início do século IV, e que até então “também eram considerados de inspiração divina”.



2) Os livros apócrifos do próprio Judaísmo, no Antigo Testamento; alguns dos quais com lições de moral muito mais elevadas do que os Canônicos. Cito, como exemplo, o Testamento de Benjamin (um dos livros que perfazem “O Testamento dos Doze Patriarcas”), onde um perdão dos inimigos no estilo cristão é apregoado por José do Egito em conversa com seu pai, num estilo de oração absolutamente não-judaica: “Que todos os pecados dos que me escravizaram, não lhes sejam imputados; que Deus não os leve em conta, por meu clamor”. O clamor de um justo usado para absolver os pecados dos que o escravizaram.



3) Muitos dos livros apócrifos do Antigo Testamento assim o foram considerados por razões étnico-territoriais: a) porque não foram escritos no território de Israel; b) porque não foram escritos em hebraico (mas, por exemplo, em aramaico: uma das línguas sírias). Critério RACIAL, portanto. E territorial. Não de temática ou mérito de conteúdo. Critério FORMAL.




Com isso, já se pode ver toda a falta de “Sublimidade” das escrituras ditas de “Inspiração Divina”, e todo o recorte que se fez nesse conjunto disponível de textos. Por razões bastante humanas (até bem rasas...), diga-se de passagem.



Por isso tudo, e por passagens absolutamente brutais e cruéis onde saques, pilhagens, dizimações, escravagismo são patrocinados por “Deus” em Levíticos, Samuel I e II, Reis I e II, e por muitos desses conceitos estarem superados em vários dos livros apócrifos, poder-se-ia dizer que muitos deles são superiores eticamente aos Livros Canônicos da Bíblia. Se a moral escondida desses livros supera a moral descrita como “divina”, por seleção (e conveniência) humana(s), nada há que se enaltecer a “Santidade Ilibada” do Conjunto dos Livros Bíblicos. Alguns são fantásticos, outros nem tanto...




Todos os livros abaixo deveriam ser examinados por qualquer um que queira defender a frágil tese da “Fonte Divina” na compilação oficial adotada como Bíblia, tanto no Antigo, como no Novo Testamento. A compilação que nos chegou teve caráter de escolha étnica, ou político-institucional. Por vezes, por ambos os critérios. Nada “divinos”.




Eis a breve lista, cujo volume perfaz cerca de duas Bíblias e meia.






Relação de livros apócrifos e pseudo-epígrafos expurgados da Bíblia:




Antigo Testamento



1. Apocalipse de Baruc
2. Apocalipse de Moisés
3. Apocalipse de Sidrac
4. Samuel Apócrifo
5. As Três Estelas de Seth
6. Ascensão de Isaías
7. Assunção de Moisés
8. Caverna dos Tesouros
9. Epístola de Aristéas
10. Livro dos Jubileus
11. Martírio de Isaías
12. Oráculos Sibilinos
13. Prece de Manassés
14. Primeiro Livro de Adão e Eva
15. Primeiro Livro de Enoque
16. Primeiro Livro de Esdras
17. Quarto Livro dos Macabeus
18. Revelação de Esdras
19. Salmo 151
20. Salmos de Salomão ou Odes de Salomão
21. Segundo Livro de Adão e Eva
22. Segundo Livro de Enoque ou Livro dos Segredos de Enoque
23. Segundo Livro de Esdras ou Quarto Livro de Esdras
24. Segundo Tratado do Grande Seth
25. Terceiro Livro dos Macabeus
26. Testamento de Abraão
27. Testamento dos Doze Patriarcas
28. Vida de Adão e Eva



Livros considerados Apócrifos pelo Judaísmo e Protestantismo


1. Primeiro Livro de Macabeus ou I Macabeus
2. Segundo Livro de Macabeus ou II Macabeus
3. Judite
4. Baruc
5. Eclesiástico ou Sirácide ou Ben Sirá
6. Livro de Tobias
7. Livro da Sabedoria
8. adições em Ester
9. adições em Daniel (ou nomeadamente os episódios da Casta Susana e de Bel e o dragão)




Novo Testamento



1. I Clemente
2. II Clemente
3. Ágrafos Extra-Evangelhos
4. Ágrafos de Origens Diversas
5. Atos de André
6. Atos de André e Mateus
7. Atos de Barnabé
8. Atos de Felipe
9. Atos de João
10. Atos de João o Teólogo
11. Atos de Paulo
12. Atos de Paulo e Tecla
13. Atos de Pedro
14. Atos de Pedro e André
15. Atos de Pedro e Paulo
16. Atos de Tadeu
17. Atos de Tomé
18. Apocalipse de Paulo
19. Apocalipse de Pedro
20. Apocalipse da Virgem
21. Apocalipse de João o Teólogo
22. Apocalipse de Tomé
23. Consumação de Tomé
24. Correspondência entre Paulo e Sêneca
25. Declaração de José de Arimatéia
26. Descida de Cristo ao Inferno
27. Discurso de Domingo
28. Ditos de Jesus ao rei Abgaro
29. Ensinamentos de Silvano
30. Ensinamentos do Apóstolo Tadeu
31. Ensinamentos dos Apóstolos
32. Epístola de Barnabé
33. Epístola aos Laodicenses
34. Epístola de Herodes a Pôncio Pilatos
35. Epístola de Jesus ao rei Abgaro (2 versões)
36. Epístola de Pedro a Filipe
37. Epístola de Pôncio Pilatos a Herodes
38. Epístola de Pôncio Pilatos ao Imperador
39. Epístola de Tibério a Pôncio Pilatos
40. Epístola do rei Abgaro a Jesus
41. Epístola dos Apóstolos
42. Evangelho Árabe de Infância
43. Evangelho Armênio de Infância (fragmentos)
44. Evangelho de Bartolomeu
45. Evangelho de Tiago
46. Evangelho de Marcião
47. Evangelho de Maria Madalena (ou Evangelho de Maria de Betânia)
48. Evangelho de Matias (ou Tradições de Matias)
49. Evangelho de Nicodemos (ou Atos de Pilatos)
50. Evangelho de Pedro
51. Evangelho do Pseudo-Mateus
52. Evangelho do Pseudo-Tomé
53. Evangelho dos Ebionitas (ou Evangelho dos Doze Apóstolos)
54. Evangelho dos Hebreus
55. Evangelho Secreto de Marcos
56. Evangelho de Tomé
57. Evangelho de Felipe
58. Evangelho de Maria
59. Exposições Valentinianas - (Fragmentos Evangélicos Conservados em Papiros) - (Fragmentos Evangélicos de Textos Coptas)
60. História de José o Carpinteiro
61. Infância do Salvador
62. Julgamento de Pôncio Pilatos - Livro de João o Teólogo sobre a Assunção da Virgem Maria
63. Martírio de André
64. Martírio de Bartolomeu
65. Martírio de Mateus
66. Morte de Pôncio Pilatos
67. Natividade de Maria
68. O Pensamento de Norea
69. O Testemunho da Verdade
70. Passagem da Bem-Aventurada Virgem Maria
71. Prece de Ação de Graças
72. Proto-Evangelho de Tiago
73. Retrato de Jesus
74. Retrato do Salvador
75. Revelação de Estevão
76. Revelação de Paulo
77. Revelação de Pedro
78. Sentença de Pôncio Pilatos contra Jesus
79. Testemunho sobre o Oitavo e o Nono
80. Vingança do Salvador
81. Visão de Paulo


Manuscritos de Nag Hammadi



Biblioteca de Nag Hammadi é o nome dado a um conjunto de textos encontrados na cidade de Nag Hammadi, no Egito, em Dezembro de 1945. Estes manuscritos totalizavam treze códices de papiro, escritos em copta, com capa de pergaminho em um recipiente fechado. A descoberta foi feita por camponeses da região. Entre as obras aí guardadas encontravam-se tratados gnósticos, três obras pertencentes ao Corpus Hermeticum e uma tradução parcial da República de Platão. Estes textos também são conhecidos como Evangelhos gnósticos



Os papiros encontrados em Nag-Hammadi são traduções de manuscritos antigos, escritos em grego, a língua do Novo Testamento. Tal fato é exemplarmente constatado, pois alguns manuscritos ali encontrados também o foram em outros locais, como o Evangelho de Tomé. As datas dos textos originais se situariam entre o fianl do Século I até o ano de 180 d.C. Em 180, Irineu, o bispo ortodoxo de Lyon, declarou que os hereges "dizem possuir mais evangelhos do que os que realmente existem". Em 367 d.C, por ordem do Bispo Atanásio de Alexandria, foram destruídos inúmeros documentos com tendências heréticas. O bispo seguia uma resolução do Concílio de Bispos de Nicéia, reunida em 325 d.C. Acredita-se que os manuscritos foram enterrados nessa época, por monges do Mosteiro de São Pacômio, que teriam tomados os livros proibidos e os escondido em potes de barros, na base de um penhasco chamado Djebel El-Tarif. Ali ficaram esquecidos e protegidos por mais de 1500 anos.
Textos principais da biblioteca


* Codex I (Codex Jung; sim, ele foi dado a Jung como estudioso do assunto)
o Prece do apóstolo Paulo
o Apócrifo de Tiago
o O Evangelho da Verdade
o Tratado sobre a ressurreição
o Tratado tripartite

* Codex II
o Apócrifo de João (versão longa)
o Evangelho de Tomé
o Evangelho de Filipe
o Hipostasia dos arcontes
o Sobre a origem do mundo
o Exegese da alma
o O livro de Tomé, o combatedor

* Codex III
o Apócrifo de João (versão curta)
o Evangelho dos egípcios
o Eugnossos, o abençoado
o A sofia de Jesus Cristo
o Diálogo do salvador

* Codex V
o Apocalipse de Paulo
o Apocalipse de Tiago (I e II)
o Apocalipse de Adão

* Codex VI
o Atos de Pedro e os 12 apóstolos
o O trovão, mente perfeita
o Ensimanteo autorizado
o O conceito de nosso grande poder
o Platão, República
o Discurso sobre o oitavo e o nono
o Prece de ação de graças
o Asclépio

* Codex VII
o Paráfrase de Shem
o Segundo tratado do grande Seth
o Apocalipse de Pedro
o Ensinamentos de Silvano
o As três estelas de Seth

* Codex VIII
o Zostrianos
o Carta de Pedro a Felipe

* Codex IX
o Melquisedeque
o O pensamento de Norea
o Testemunho da verdade

* Codex X
o Marsanes

* Codex XI
o Interpretação do Conhecimento
o Exposição Valentiniana
o Alógenes
o Hypsiphrone

* Codex XII
o Sentenças de Sexto
o Fragmentos

* Codex XIII
o Protenóia trimórfica
o Sobre a origem do mundo




Escritos encontrados nas cavernas de Qumran no Mar Morto (Israel)

1. A Nova Jerusalém (5Q15)
2. A Sedutora (4Q184)
3. Antologia Messiânica (4Q175)
4. Bênção de Jacó (4QPBl)
5. Bênçãos (1QSb)
6. Cânticos do Sábio (4Q510-4Q511)
7. Cânticos para o Holocausto do Sábado (4Q400-4Q407/11Q5-11Q6)
8. Comentários sobre a Lei (4Q159/4Q513-4Q514)
9. Comentários sobre Habacuc (1QpHab)
10. Comentários sobre Isaías (4Q161-4Q164)
11. Comentários sobre Miquéias (1Q14)
12. Comentários sobre Naum (4Q169)
13. Comentários sobre Oséias (4Q166-4Q167)
14. Comentários sobre Salmos (4Q171/4Q173)
15. Consolações (4Q176)
16. Eras da Criação (4Q180)
17. Escritos do Pseudo-Daniel (4QpsDan/4Q246)
18. Exortação para Busca da Sabedoria (4Q185)
19. Gênese Apócrifo (1QapGen)
20. Hinos de Ação de Graças (1QH)
21. Horóscopos (4Q186/4QMessAr)
22. Lamentações (4Q179/4Q501)
23. Maldições de Satanás e seus Partidários (4Q286-4Q287/4Q280-4Q282)
24. Melquisedec, o Príncipe Celeste (11QMelq)
25. O Triunfo da Retidão (1Q27)
26. Oração Litúrgica (1Q34/1Q34bis)
27. Orações Diárias (4Q503)
28. Orações para as Festividades (4Q507-4Q509)
29. Os Iníqüos e os Santos (4Q181)
30. Os Últimos Dias (4Q174)
31. Palavras das Luzes Celestes (4Q504)
32. Palavras de Moisés (1Q22)
33. Pergaminho de Cobre (3Q15)
34. Pergaminho do Templo (11QT)
35. Prece de Nabonidus (4QprNab)
36. Preceito da Guerra (1QM/4QM)
37. Preceito de Damasco (CD)
38. Preceito do Messianismo (1QSa)
39. Regra da Comunidade (1QS)
40. Rito de Purificação (4Q512)
41. Salmos Apócrifos (11QPsa)
42. Samuel Apócrifo (4Q160)
43. Testamento de Amran (4QAm)



Outros Escritos

1. História do Sábio Ahicar
2. Livro do Pseudo-Filon
3. Evangelho de Judas


Nota: Os livros considerados apócrifos pelos Judeus e Protestantes estão incluídos nas Bíblias Católicas.



Tais textos perfazem (por enquanto) cerca de 120 livros, entre apócrifos e pseudo-epígrafos (aqueles de "identidade atribuída suspeita" -livros de falsa assinatura, como se dá com vários dos canônicos, que são "compilações de gerações" que atribuem o conjunto do trabalho a um autor único: Apóstolo ou Patriarca).




A Bíblia Canônica não será ampliada, a despeito da autenticidade comprovada dos escritos encontrados, porque os critérios e canonicidade estarão, sempre, atrelados aos interesses supra-citados. E a autenticidade desses textos, em termos de datação e local de origem é tão documentada quanto a dos textos ditos “canônicos” (oficiais).



As pessoas envolvidas com estudos bíblicos deveriam se interessar pela leitura dos mesmos, visto que alguns destes livros complementam os escritos Sagrados e preenchem lacunas existentes. Deveriam fazê-lo até mesmo para mostrar a “superioridade de mérito e conteúdo” (frise-se: de mérito e conteúdo) dos livros canônicos e justificarem seus acanhadíssimos pontos de vista.



Os indivíduos humanos (nada de “profetas inspirados”) que selecionaram o restrito conjunto de textos bíblicos como “canônicos”, e expurgaram os demais, não o fizeram por sublimes razões de inspiração divina superior. Mas por preferências e interesses bastante humanos, referentes à manutenção da autoridade das instituições já constituídas, prestígio e para demover pluralismos no seio das comunidades por eles comandadas. Para aglutinar opiniões/pessoas e poder.



Tendo dito isso, sintetizo que:




A Bíblia é um livro extremamente irregular. Onde, ao lado de passagens sublimes, poderíamos ter (como frequentemente ela é usada) um livro de cabeceira para sociopatas, no caso de anjos vingadores auto-proclamados (o que os judeus fizeram a amorritas, cananeus, e vários povos “não-eleitos no passado), o que a Igreja durante a Inquisição (o Malleus Maleficarum é tão mau quanto passagens dos livros canônicos que eu citei acima). Isso se dá exatamente como os terroristas usam o Alcorão (Corão, na verdade; Al é um prefixo-artigo: O Corão). Exatamente igual. Como os nazistas usavam Mein Kampf (minha Luta) de Hitler. Exatamente. Sem tirar nem por.





É isso.








Marcelo Novaes

Testemunha ou "Ausência de": Base do Medo e Culpa Ontológicos


Transcrevo, aqui um breve diálogo com uma amiga blogueira, com um [também breve] comentário, em adendo. Falaremos de testemunha ou “Ausência de”, que é o Tema Narcísico por excelência. E que está, inclusive, ao fundo das culpas mais "basilares" do sujeito ferido. Mais fundantes e fundamentais. Mais fundas, portanto.




Eis, então, o diálogo:


Postagem de Luciane Slomka:


Testemunha
Beverly: Por que você acha que as pessoas se casam?

Sr. Devine: Paixão?

Beverly: Não.

Sr. Devine: Interessante, eu pensei que você fosse uma romântica. Então, por que é?

Beverly: Porque precisamos de uma testemunha para nossas vidas. Há um bilhão de pessoas no mundo, que importância tem a vida de cada pessoa, na verdade? Mas no casamento, você se compromete a se importar com tudo. As coisas boas, as coisas ruins, as coisas terríveis, as coisas comuns… com tudo, sempre, todos os dias. Você diz: “a sua vida não passará sem ser notada, porque eu estarei lá para notar. Sua vida não ficará sem testemunhas, porque eu serei a sua testemunha.”

* Cena do filme "Dança Comigo" (“Shall We Dance”).




Comentário meu:




Luciane,




Ver e viver algo sozinho pode ser assustador na infância, se isso for uma visão que pareça incomunicável (ou que nenhum adulto possa/ queira ouvir). Ter uma testemunha parecerá sempre importante. Porque aquele que vê, sem testemunhas, carrega um fardo: o do portador-solitário-da -visão. Ou vivência.



Solidão de Prometeu, que carregou o fogo sozinho.







Beijos,








Marcelo.




Note-se: na minha perspectiva, essa motivação coincide com a do diálogo do filme. A questão é que eu escolhi tratar de um perfil de sujeito que experimenta um “quantum” desse “presenciar/ vivenciar-sem-testemunha” quer torna a situação muitíssimo mais séria, por este vértice.



E o casamento nem sempre é a solução procurada. Um bom casamento salvou William Blake. A procura inglória por cúmplice arruinou Van Gogh. Estávamos falando de culpa ontológica, que nasce da solidão, de um acuamento. E de um “pedir licença (não só à sociedade, mas a uma ambiência mítica dentro de si) para ocupar espaço no mundo”. Faremos uma análise dessa culpa ontológica em trânsito para aquela culpa mais prosaica referente a dissipações pulsionais (e não à impossibilidade de ser), aquelas culpas do usufruto do prazer em detrimento do script social, a culpa freudiana. Faremos essa transição, mas partindo da primeira culpa. A mais séria. Aquela culpa ontológica. E esse quantum não será levado ao casamento, mas a um mosteiro.



Nosso personagem-gancho para tratarmos desse assunto será o monge trapista Thomas Merton, e sua vertigem existencial (crises de pânico, sim senhor) em sua ida para o mosteiro. E a culpa ligada a certos sentimentos mais graves do que a culpa edípica: “Ninguém me conhece; e minha história pode ser maior do que eu mesmo”. Ou seja: maior do que ele mesmo poderia suportar. Além de difícil de comunicar. Mas como Thomas Merton já era um sujeito articulado e nada “encapsulado”, no sentido do insulamento mítico ao qual aludimos, essa incomunicabilidade se referiria a pudor + medo. O que faz transição para a culpa edípica. A culpa mais grave envolve terror + incomunicabilidade “ontológica” (não por pudor, mas por essencial “indizibilidade”; pela não credibilidade no “poder dizer”; “não digo por ser indizível, e não por vergonha”). E não tem nada a ver com culpa ligada ao prazer, mas, sobretudo (e fundamentalmente) ao “terror de ver sozinho”. E ver demais.



Sem testemunhas.



Tão fantasmagórico e primitivo (mítico, surreal) quanto ser o único a ver uma estátua se mexendo num jardim. Ou de ser o único a testemunhar o esgar de um quadro no corredor da casa. Sendo que o próprio conteúdo a ser dito soaria “inacreditável” ou inverossímil. Mas, sempre, muito mais complexo do que essas projeções-em-objetos, aqui tomadas como ilustração.




Meus poucos leitores: não percamos as questões essenciais de vista. Esqueçam essas coisas de Woody Allen e essas culpas mais baratas. Outsiders são seres da profundidade. E não se perdem em lutas pueris (sucumbindo a elas) que se traduzem em: “Transo ou não transo com minha filha adotiva?!” Esses são os dramalhões edípicos de Woody Allen, o psicanalisando (sempre em trabalho inconcluso...) freudiano por excelência. Se as histéricas vitorianas eram um excelente paradigma para Freud, o “murmurador obsessivo-compulsivo” (Woody Allen), que pensa em voz alta e coloca as mulheres da vida real para atuarem (na tela) seus dramas edipianos (tesão, sexualidade, culpa – jamais “solidão ontológica”, coisa da qual ele parece nem ter notícia..., só remota...), é o neurótico exemplificador da condição contemporânea. Com um componente perverso (sim: ele coloca Mia Farrow e Diane Keaton como protagonistas cinematográficas de suas fantasias edipianas pseudo-culposas: é um Narciso sem profundidade ontológica alguma, com os dois pezinhos chafurdando em Édipo não-resolvido). Essa “culpa” é culpa menor em nossa clave. A clave aqui é maiúscula. “Chover no molhado” não interessa. Os filmes de Woody Allen são sua própria caricatura. E um desenho caricato do âmbito das culpas edípicas (que ele, neurótica e perversamente, reencena, ad infinitum). Quem vê dois de seus filmes, viu todos.



Guardemos a noção básica de que a culpa “que mais pesa” é a ontológica: “a de absoluta falta de testemunha para o visto”. E não a de “dilemas quanto ao que faremos com relação a nossas pulsões erótico-agressivas, diante dos interditos culturais apresentados”. Tsc tsc tsc... Isso é café pequeno perto do tema deste blog.








Até a próxima.







Marcelo Novaes


Ps. Blog de Luciane Slomka: http://creioparaver.blogspot.com/

Interlúdio: Uniban como pré-texto para uma reflexão sobre Educação

Texto originalmente escrito para o Blog "No Rastro da Educação", de minha amiga Tania Nascimento. O blog está elencado no meu blogroll.



A foto que você, caro leitor, vê acima é do clube de vôlei Mizuno-Uniban. A estrela acima, à esquerda, é aquela mesma que o leitor já suspeitou, bom fisionomista que é: Ana Moser. Naturalmente, a grande jogadora já foi garota propaganda da Universidade. Mas ela não está só: Martinho da Vila já o foi (aproveitando o mote: “é particular, ela é particular”, pra dizer que “nessa particular você pode estudar”...). O peixe vendido pela Uniban sempre foi o da Responsabilidade Social. Por isso, ela estaria comprometida com belas ações sociais (além do esporte...), o que fez com que, além de Ana Moser, Martinho da Vila, Vicentinho (ex-presidente nacional da CUT) e Juca de Oliveira também fizessem propagandas entusiásticas sobre tal Instituição. Movido por valores, creio eu.



Comentando com um respeitável senhor os recentes episódios, e do quanto a Uniban talvez não pudesse mais contar com tais garotos-propaganda de luxo, tal senhor, brincando comigo arrematou, com bom humor “pragmático”: “é só ‘renegociar’ os valores”.



A ambiguidade do termo pode ter rendido um sorriso amarelo no semblante do leitor. E umas “coçadelas de cabeça” na Reitoria daquela pífia instituição de ensino “superior”. A estrutura física da Uniban é moderna. Os “campi” oferecem conforto. Devem ter bons refeitórios ou lanchonetes. É a quarta maior Universidade do Brasil, em número de matrículas. Ocupa a singela posição de número 159 no ranking classificatório-qualificatório do Mec, especificamente no quesito “ensino” , em 175 avaliadas (esqueçamos as instalações físicas e qualquer “mimetismo com shopping-centers”, all right?!). Ou seja, a quarta maior Universidade do país, em termos de número de alunos, é a 16º pior em termos de qualidade de ensino.



Pra não se dizer (ou se pensar) que tenho particular antipatia pela Uniban, farei singela digressão sobre outra universidade particular de "Ensino Superior" que fica na rua de meu antigo consultório (lá trabalhei até um mês e meio atrás): a Uninove. Seu singelo slogan diz assim: “A Uninove é Dez”. Seu carro-chefe em termos de propaganda (cartazes no metrô, outdoors na cidade, propaganda na TV) é outro esportista-empresário de sucesso: o Bernardinho, do vôlei. Qual a imagem? Homem de sucesso, empreendedor, disciplinador. Self-made man. “Você pode”, eis o lema, típico dos filmes americanos no estilo Rocky Balboa.



As instalações da Uninove eu conheço por dentro: fiz exame para Concurso público em Psicologia (para trabalhar em UBS, na periferia) em suas instalações. Passei com folga, frise-se, num concurso com 9000 candidatos. Não houve dez notas maiores do que a minha. E os critérios de desempate eram: entre casado e solteiro, casado (sou solteiro). Entre homem e mulher, mulher. Com filhos ou sem, com filhos. (Não os tenho). Pontuação extra por carreira em serviço público (não havia trabalhado em serviço público). Contei só com minha pontuação, o que seria suficiente se houvesse um sexto das vagas (eram pouco mais de 150). Depois de três anos e pouco de trabalho, pedi exoneração para poder fazer denúncias administrativas dos meus superiores, tendo nota máxima em todos os quesitos, outorgadas por esses mesmos superiores (!). Dei-lhes um prazo para corrigirem distorções presenciadas (que incluíram má conduta medicamentosa, assédio moral a pacientes meus e cooptação de pacientes psiquiátricos para “complementação de tratamento em serviços privados, por baixo do pano”; alguns desses serviços sendo, inclusive, de natureza neoxamânica; "neoxamanismo mercantilista", foi a minha denúncia), ou então agiria. Cumprido o prazo dado, exonerei-me e agi. Ou seja: comprar briga não é coisa que eu só faça em blogs... rs rs rs




As instalações da Uninove (“A Uninove é Dez”) soam dignas de um shopping. Catracas eletrônicas, seguranças, praça de alimentação de qualidade. Há um excesso de barzinhos e mesmo botecos (“portinhas de botecos”, inclusive) no em-torno /entorno, mas isso não é de responsabilidade da Universidade, cumpre dizer. Não há mesas suficientes, e a qualquer hora que se passe pela região se achará centenas (pelo menos duas centenas) de estudantes com copos na mão, de pé, nas calçadas, pela lotação das mesas e cadeiras. Ambulantes também ocuparam a região próxima ao Memorial da América Latina para vender lanches e bebidas. Os estudantes de hoje bebem muito, é uma constatação que fiz “in loco”: antes das aulas e nos intervalos. Isso é fato. Muito mais do que estudantes de minha geração. E já estudei alguns semestres em farmácia e Bioquímica na Usp, na Escola de Comunicação e Artes (Eca) e na Psicologia. Ou seja, passei por três faculdades até optar por carreira que me realizasse. E a geração de hoje (universitária) bebe mais no cotidiano. E começa a beber mais cedo.




A Uninove fez uma jogada de mestre, mercadologicamente falando. Seus cursos são divididos em módulos. Se você opta por Engenharia Civil, por exemplo, tem a seguinte “progressão de carreira”, mesmo antes de sair dos bancos escolares: antes de se formar em Engenharia Civil propriamente dita (supõe-se ter sido este seu objetivo...), você ganha uma “qualificação profissional” em Controle Tecnológico do Concreto. No terceiro ano, você já está apto a receber uma “diplomação” de Gestão em Construção Civil. Após o que, diz-se estar você habilitado a fazer uma Pós (Especialização, considerada exatamente nesses termos) em Engenharia Civil que, em tese, é o curso para o qual você teria se inscrito originalmente. A qualificação que antes era mínima, já foi transformada em “pós” por tal grade classificatória. Não é engenhoso?! Você poderá encontrar isso em todos os cursos, sob a alegação desse método exponenciar a sua empregabilidade a níveis logarítmicos. Sim: “otimiza a empregabilidade”. Dez! Se o seu interesse for Letras, por exemplo, você ganha uma Qualificação Superior (aos dois terços do curso) que te “legitima” como um Revisor de Textos em Língua Portuguesa. Sua “pós” será em Letras propriamente ditas. E por aí vai...




A Uninove chegou aos noticiários por alguns trotes violentíssimos, os quais não vou reprisar aqui. O interessado que faça pesquisas no Google. Digite: trotes na Uninove e verá a barbárie. Isso não é apanágio nem privilégio de universidades pagas, bem o sabemos. Vide a Medicina da Usp com a morte do calouro chinês na piscina, há alguns anos atrás. De qualquer maneira, explicito aqui algumas variáveis do Ensino Superior: em-torno/ entorno, oferta mercadológica & manhas-de-nomenclatura , papel da propaganda, instalações “ao modo dos shopping centers” e total falta de excelência no ensino propriamente dito. A qualificação da Uninove é igualmente pífia. Mas sua pontuação no IGC (Índice Geral de Cursos), 213 pontos, relativamente à Uniban (195), torna-a quase um micro-projeto de Sorbonne brasileira, a se julgar a quantas anda nossa Educação, nivelada por baixo. E ainda o número de universidades pífias a formar "fornadas" de milhares de alunos com sub-qualificações, agora em "sub-modalidades", ad infinitum. Mas se pegarmos a média de uma Universidade Particular com ilhas de competência, como a Universidade Presbiteriana Mackenzie, malgrado toda a decadência do ensino em geral, veremos que seus 304 pontos de IGC demonstram o chão que as outras ainda precisam caminhar. E o quanto ela também precisa. Diga-se de passagem que a pontuação limite seria 500. Difícil?! A Fundação Getúlio Vargas, também particular, marcou 458 pontos nesse placar... Placar médio, diga-se de passagem. Seus melhores alunos bordejam a nota máxima, com grande frequência. Em regrinha de três simples, temos as respectivas notas das instituições citadas, numa escala de 0 a 10: Uniban:3,9; Uninove:4,26; Mackenzie: 6,08; Getúlio Vargas: 9,16. Barbaridade...




Educação, em sentido amplo, demanda ambiente familiar, disponibilização de aparelhos/equipamentos e símbolos culturais à sociedade (espaços de convívio e produção cultural, qualidade da mídia aberta) e ensino escolar. São essas as variáveis. Isso é parte do background de uma formação humana. Se o sujeito aprende música em nível escolar, desenvolve um raciocínio numérico-temporal, que lhe permitirá desenvolver abstrações matemáticas. Além de ser uma educação sensível, também. Estética. Se ele participar de grupos musicais, será uma educação do convívio. Não é á toa que mentores de bons projetos sociais, como a ONG Meninos do Morumbi, usa tão bem a música. A ONG Gol de Letra, de Raí e Leonardo, usa esporte, artes circenses e educação, além de formação técnica e socialização com família e comunidade.




Aqui em São Paulo, realidade que conheço, recebia encaminhamentos “às pencas” de crianças de terceira e quarta séries do ensino fundamental , analfabetas, com as coordenadoras pedagógicas ávidas por encontrar algum déficit em psicomotricidade, exames de quantificação de inteligência e outras tabulações congêneres, solicitando-me, enfim, massivas baterias de exames, para justificar, por exemplo, o encaminhamento de trinta alunos de uma única sala de aula (!) que teriam de apresentar proficiência mínima em leitura e matemática para chegarem á quinta série. Ou seja, com medo da má avaliação de seu ensino, essas professoras e coordenadoras pedagógicas procuravam álibis em déficits emocionais e ou cognitivos (hiperatividade, por exemplo, passou a ser o “rótulo diagnóstico leigo preferencial” para qualquer criança mal criada, mimada ou caprichosa) para justificarem seus fracassos. Isso, quando não esperavam de mim o papel de “dublê de professor”, provavelmente usando giz e lousa, fazendo construção silábica em local destinado a cuidar de saúde emocional de crianças órfãs, abusadas em seus lares, ou que viram um primo ser incendiado no carro, por dever ao tráfico de drogas.




Além da falta de perspicácia de muitos professores do ensino fundamental que confundiram “cópia” com domínio lógico-conceitual da escrita (“ele é caprichoso, doutor, dispõe de todo o conhecimento de que precisa, na escola faz tudo, em casa, nada”...; “claro, minha senhora, ele copia o que está na lousa; em casa, copiará de quem?”), tem-se várias distorções. Vamos a alguns dados importantes, obtidos em pesquisa com cerca de 500 escolas públicas do Brasil, envolvendo 20000 entrevistados, entre alunos, pais, professores, diretores e funcionários. De acordo com a pesquisa Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) a pedido do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), 96,5% dos entrevistados têm preconceito com relação a portadores de necessidades especiais, 94,2% têm preconceito étnico-racial, 93,5% de gênero, 91% de geração, 87,5% socioeconômico, 87,3% com relação à orientação sexual e 75,95% têm preconceito territorial. Vamos definir preconceito territorial: onde nasceu e onde mora. De que cidade veio, e a rua/bairro onde mora. O sujeito veio do interior ou da roça, fala com sotaque, mora numa rua “pior do que a do coleguinha”, sua mãe fala mais certo ou errado do que a do coleguinha, etc.



Vamos lá. Os piores preconceitos (bem antes dos raciais) são os referentes às deficiências físicas e ou mentais. E envolve os pais dos alunos, inclusive. As crianças que serão vítimas de bullying (tradução livre: “massacre moral”) serão as menores, as mais frágeis, as com lábio leporino, as que mancam, as com desvios na coluna, as anãs, as que “babam em sala de aula”, as “quatro olhos” (míopes), estrábicas, as “retardadas”, etc e tal. Para pais e estudantes. Grande novidade, né?! As crianças são estimuladas a passeios ao Playcenter, a parques e zoológicos, a circos. Por que não vão assitir palestras e visitar APAES, Orfanatos, AACDS, locais que cuidam de portadores de paralisia cerebral? Por que não vão, COM SEUS PAIS, a asilos, por exemplo? Na verdade, ficou demonstrado que há um grande preconceito com professores idosos e funcionários idosos. E que esse preconceito INCLUI OS FUNCIONÁRIOS DAS ESCOLAS. Bom aqui as questões puramente mamíferas de seleção de espécie pelos mais fortes e vigorosos/ “varonis” está e pauta: seja na questão das deficiências físicas /mentais (que incluem um componente estético de repulsa, pra piorar ainda mais a coisa...), seja na questão do “tiozinho ser velho demais pra dar aula, mano”... Aqui temos uma subavaliação do idoso como “sucata pouco vistosa”.



Não falarei aqui dos preconceitos de raça e gênero, não porque os ache menos importantes, mas por eles já serem mais contemplados pela mídia. Tendo essa discussão, portanto, mais familiar a um público maior.



Vamos a esses números: Os deficientes mentais são os que sofrem maior preconceito com 98,9% das pessoas preferindo manter distância social dos mesmos. Vamos a outros índices dos que querem manter distância (pais e alunos): ciganos (97,3%), deficientes físicos (96,2%), índios (95,3%), pobres (94,9%), moradores da periferia ou de favelas (94,6%), moradores da área rural (91,1%). Excluí, deliberadamente, “questões de gênero”, para atentar o leitor para variáveis outras fora dos bordões “batidos à exaustão”, quais sejam: negros ( a questão de quotas trouxe à baila a discussão) e homossexuais (os militantes adultos do direito á manifestação de escolha de gênero mudarão esse quadro em poucas décadas). Mas e a questão de fulaninho é mais fraco, menor, menos saudável, mais sujinho, de uma rua de barro, com sotaque caipira, vindas de escolas PÚBLICAS? É surpresa que tenhamos uma classe média, DE ESCOLA PRIVADA, que incendeie ÍNDIO, dizendo achar tratar de ser só um MENDIGO? E para dar um SUSTO? Com aval de seus pais?! (“Era brincadeira, os meninos não fizeram por mal”...).




Temos uma classe média horrorosa. Crescida com vídeo games, que aprende a “vídeo-gamezar” a vida em geral e seus interlocutores como títeres para seus caprichos e taras. Pontua-se (sim, "marca-se ponto") por assassinatos e delitos cometidos (saques, estupros), em tais vídeo-games (criados pela Sony e outras multinacionais, sem nenhum escrúpulo ou compromisso social). Mateus da Costa Meira, que já mandava spy e vírus maliciosos a empresas e pessoas físicas, repetiu, em sala de cinema, uma cena de um desses vídeo-games. A videogamezação da vida coloca o sujeito sob a égide do instinto cru, e do “princípio de prazer”, na terminologia freudiana. O princípio de prazer, fundamentalmente voraz e egoísta, precisa dialogar e reconhecer o “princípio de realidade”, dentro dessa mesma leitura psicanalítica. Friso que não sou freudiano, mas ele é o psicanalista mais didático que posso citar. Não há nobreza alguma no instinto cru: ele precisa ter uma personalização e socialização para enxergar o outro como interlocutor. Mais-que-objeto: pessoa. A videogamezação da vida opera em sentido oposto: transfigura (e “subfigura”) as pessoas como “etapas a serem vencidas numa escala de pontos individuais”. A leitura de mundo das competições premiadas a dinheiro, como se dá nos “realities shows”, patrocinam/ promovem a mesma lógica.




Nossa classe média é horrorosa. Em média. A estudante Geysi Arruda, de forma pueril, inadvertida ou divertidamente, operou sua inserção na Universidade dialogando num registro onde não se pode esperar nobreza da “horda”. Homens em bando (ou em Unibandos) são “horda”, ou “gangue”. Eros só é bem trabalhado em nível de “personalização do vínculo”. Eros impessoal é “cru”. Voraz. A “impessoalização/ despersonalização” do “ver instintivo” do “outro-anônimo-como-coisa” dá nessa merda toda, em tempos “globalizantes” como os nossos. Os caras olham pra menina como se masturbam em frente às telinhas dos computadores, ou como “comem” as atrizes pornôs com os olhos. Geyse quis estar “bem na fita”. Ficar bonita, sedutora. Errou no cálculo. Subestimou a não-nobreza do registro de apresentação escolhido. E a horda de babacas se manifestou. Não é à toa (e não por moralismo pueril, mas por conhecimento da natureza humana) que a psicanálise, as ciências sociais e também as religiões sempre souberam que escolher a sexualidade como “cartão de visita” é um mau negócio para o relacionamento humano. Da mesma maneira que escolher slogans ou palavras de ordem. Atavismo. Simplesmente isso.




Ou a Uniban se repensa a partir desse episódio (que é só a ponta de uma série de mazelas), ou (man)terá os alunos que merece. Esses mesmos.










Marcelo Novaes

Do Outsider Romântico à Primeira Dimensão da Culpa: Final


Como sinto que meus poucos leitores estejam com saudades de minhas incursões conceituais, prossigamos com o Outsider Romântico e com minhas não-tão-românticas observações. Como os meus textos dos blogs poéticos já estão praticamente todos escritos (apenas atualizo um por dia, ou subo textos antigos – de quando tinha dois leitores...), agora irei me dedicar a postar com mais assiduidade os textos dos blogs conceituais: ReInvenção de Jorge e este “O Olho”. Simhanada já está concluído.



A estratégia é sempre: recuar, para avançar. Então, retomamos um trecho de Colin Wilson sobre Hesse (“Steppenwolf”), para seguirmos em frente. Segurem-se nos barcos, timoneiros!




Collin Wilson (falando sobre o personagem principal, Haller, de “Steppenwolf”):



“Haller sabe que mesmo quando o Outsider é um gênio universalmente reconhecido, é devido à “sua imensa capacidade de renúncia e sofrimento, de indiferença pelos ideais da burguesia, e de paciência quando renegado àquele último grau de solidão que rarefaz a atmosfera do mundo burguês, transformando-a em éter gelado em torno dos que sofrem para se tornarem homens, aquela solidão do jardim do Getsêmani”.


Trocando em miúdos: o outsider realiza sua tarefa, com ou sem platéia. Ele não é alo-motivado, mas auto-motivado. Desempenha o que acha que tem de desempenhar com aplauso ou sem. Com público, ou sem. Van Gogh é um exemplo óbvio. “Fracasso Correto” é o nome que dou a isso, pela tacanha perspectiva social. Van Gogh FOI UM FRACASSO aos olhos da sociedade média de seu tempo. William Blake é outro exemplo clássico. FRACASO ABSOLUTO. Mas auto-motivado. Fez muito. Hoje, os retardatários fazem peregrinação ao seu túmulo, e procuram seus manuscritos, mas o rapaz motivou a si mesmo. Não dependeu dos apupos da massa. E por falar em Getsêmani, teríamos em Jesus Cristo, olhado pela rasa perspectiva média social, outro FRACASSO EXEMPLAR. Malgrado a excelência ética de sua trajetória. Como a questão da Ressurreição não pode ser levantada sem a estatística das testemunhas em jogo, aqui limito-me a sinalizar alguns dos outsiders “fracassados”.



“Fracasso correto” é o construto proposto para esses casos. Naturalmente que podemos pensar na sua inevitável (e forçosa) contraparte: “Sucesso Espúrio”. Aquele que é largamente aplaudido e apupado, porque fala o já-sabido, e explicita a “mediocridade média” (é pleonástico, eu sei; mas não fortuitamente) de seu tempo. E me digam se pode haver alguma coisa acima do medíocre na consciência média que apupa, uiva e aplaude o já-sabido, as velhas mesmices?!




Temos alguma coisa a pensar aqui: o sujeito auto-motivado (não por recompensas sociais, muito pelo contrário; não pelo “torrão de açúcar dado ao bichinho na caixa de Skinner”, não por “reflexo condicionado”...), te e si mesmo um diferencial: ele se move para além da cobrança (ou VAIA) DO GRUPO. Pense num artista ou pensador auto-didata que Vai todas as noites a uma biblioteca, sabendo que ao término de uma jornada de centenas de horas de leitura não receberá canudo algum, nem título de mestre, nem qualificação acadêmica que possa ser revertida em prestígio-remuneração, nenhum TÍTULO ou PRÊMIO, enfim. O sujeito que assim age o faz por crer no valor INTRÍNSECO de sua formaçõa e /ou de seu trabalho ou arte. E se ele mantém ritmo, regularidade, disciplina, sem que ninguém esteja vigiando se ele “bate o ponto”, e sem nenhuma garantia de “prêmio social” ou “reconhecimento” ao término da jornada, tal sujeito não tem as motivações médias do homem mediano rastreado por Skinner, ou por Freud (sim, porque este só concebe a sublimação pelo aval cultural, pelo prêmio auferido pela CULTURA; a sublimação aufere da cultura a substituição da gratificação instintiva). O Outsider é um homem sem garantias, e sem aval prévio. É tão incompreensível para Freud como para Skinner. Tão enigmático quanto um monge. Ou um santo. Por isso, a imagem do Getsêmani como metáfora dessa solidão ontológica do buscador ABSOLUTAMENTE SOLITÁRIO, E SEM AVAIS é absolutamente apropriada para se pensar em Van Gogh, como o seria para se pensar em William Blake (um de nossos próximos personagens). Como é obviamente apropriada para se pensar em Cristo. Três Fracassos Sociais. Três Corretos Fracassos, frise-se.



Esse mistério da auto-motivação, da auto-propulsão em relação ao trabalho de sua vida (seu Opus, diria Jung) é algo que precisa ser muito considerado pelos Insiders, que pouco o testaram ao longo a vida. Sempre havia uma mão ao fundo a acenar-lhes: “venha que a recompensa social (dinheiro, prestígio, admiração do sexo oposto) está te esperando logo ali/ aqui em frente”. Bahhhh. Quem pensa nesses termos, nada sabe de Outsiders e de seus desafios. E fazer incursões em terreno menos óbvio já sendo um insider bem aceito e conceituado (por exempolo, aventurar-se em carreira artística paralela tendo um belo escritório de advocacia consolidado) é “brincar de Outsider”. Não, de fato sê-lo. Freud foi um Insider. Nietzsche, um Outsider. Gauguin foi um Insider fazendo charminho nas Ilhas do Taiti, mas olhando para os acenos de Paris. Van Gogh foi um Outsider. Os primeiros correm riscos mas estão calculados na margem da segurança social. O segundo ignora protocolos e segue, a despeito da solidão. Sabe que, em última análise, os protocolos são guard-rails dos inseguros. Então, por trás da excentricidade de um Outsider deve haver grande firmeza de propósitos. Grande clareza de foco. Extrema diligência no uso de sua energia sem avais sociais que a catalisem. De onde o Outsider aufere tudo isso?! DE SI MESMO. Essa é a resposta.



Precisaremos explaná-la, claro. A estratégia é “recuar, apara avançar”. Assim sendo, retomemos um trecho do Steppenwolf já triplamente apresentado ao longo de nossas postagens, citado e sumarizado por Colin Wilson:



‘O nosso Steppenwolf... descobriu que.. na melhor das hipóteses, está apenas começando uma longa peregrinação em busca dessa harmonia ideal... Não, o caminho de volta à natureza é falso e não leva a lugar nenhum, só ao sofrimento e ao desespero... Todas as coisas criadas, mesmo as mais simples, já são culpáveis, já são múltiplas... O caminho para a inocência, para o incriado, para Deus, segue em frente, não para trás, não para o lobo ou a criança, mas sempre mais fundo na culpa, sempre mais fundo na vida humana... Em vez de reduzir o seu mundo e simplificar seu espírito, você terá de acolher o mundo inteiro em sua alma, custe o que custar.’



Wilson: “A última imagem do tratado lembra uma idéia de Rilke: o Anjo das Elegias de Duíno que, de sua imensa altura, pode ver e abranger a vida humana como um todo”.



Já citei em outras postagens o sonho numinoso de James Grotstein, e não é o caso de repeti-lo aqui. O leitor interessado pode ir com proveito às tags (bela versão digital do índices onomásticos ou temáticos). Basta aqui dizer que Rilke é outro outsider, de fato. Alguém que se guia por suas visões e certezas interiores, e não por avais sociais médios e pré-garantias. Todo outsider é um visionário. Todo outsider tem uma relação com o Inconsciente (chame a essa instância de Inconsciente ou não) muito acima da média, é mais introspectivo do que a média, necessariamente auto-observador e introspectivo no limite do plausível e tolerável. Além desse limite para os não familiarizads com essa quota de diálogo interno (geralmente com genes bem precoce; a propósito ler todas as minhas postagens com as tags: self encapsulado, ou encapsulamento do self).



Os meus leitores (dois ou três) estão à espera de que eu trate do tópico “Culpa”. Eu gerei neles (dois ou três, repito) essa expectativa. Mas agora devem estar coçando as orelhas e franzindo o cenho... Culpa... como começar a pretender falar em culpa a partir dessas premissas?! Certamente essa culpa será também mais profunda do que a culpa edípica... Não parece a culpa de quem teme não cumprir o “script social médio”, uma vez que há um “algo” que impele o sujeito a seguir em frente “a despeito de nenhuma garantia de afirmação/ realização social”. Bingo! A culpa dos valores sociais introjetados ( o tal superego tirânico ou arcaico, como Pai ou Lei internalizados) é uma dimensão muito rasa da culpa. Também falaremos dela, claro. Mas as exigências que impelem o Outsider são supra-sociais. E a ética, bem como a culpa são questões FILOSÓFICAS ou METAFÍSICAS. Repito: a ética é, em seu lastro mais funbdante e fundamental, uma questão METAFÍSICA, e não SOCIAL. Para o Outsider, essa questão PODE SE DERRAMARA PARA O SOCIAL, SECUNDARIAMENTE. ULTERIORMENTE. MAS, NA SUA ORIGEM, TRATA-SE DE UMA QUESTÃO METAFÍSICA. Por isso friso e frisei ( e nunca será o bastante reiterá-lo), que para os olhos do Insider (inclusive pensadores-insiders) todo Outsider é uma incógnita no mínimo tão séria como o monge genuíno. Não importa qual credo ele advogue. Muitas vezes um credo personalíssimo: o credo de uma pessoa só. A arte do outsider é original (porque originária de suas próprias fontes), bem como seu pensamento. Se ele não for um pensador, será um pintor original, ou bailarino original. Forçosamente, um excêntrico.



Que tipo de culpa isso traz?! Em primeiro lugar a culpa como halo de uma solidão ontológica fundamente ( e fundamentalmente) experienciada em si mesmo. “Todos somos sós”. O outsider não tem isso como um jargão de uso fácil, mas como “espinho na carne”. Ele sabe disso desde a infância. E conhece os solilóquios internos compensatórios a esse saber também desde a infância. Conhece monólogos internos, se for religioso conhece diálogos com Deus (muitas vezes temíveis) desde muito cedo. Conhee solidões específicas, difíceis de se apaziguar mais tarde com o “ter alguém por perto”: solidões COGNITIVAS (eu sei o que não é vulgar); solidões estéticas (eu quero apresentar aos outros o que não encontro parecido); solidões epistêmicas (eu quero indagar as coisas por um caminho considerado “não-plausível”, ou “estranho demais”). Aqui, nós temos uma culpa que é, tão somente, “halo de uma solidão”. E “halo de uma estranheza”, de uma funda percepção de não-pertencimento do grupo médio. A culpa por ser diferente. Mas, se o Outsider crescer, ele sabe que essa diferença é irredutível à “igualdade média”. Não se deixa de fazer uma pergunta já formulada, ainda que solitária. E não se deixa de ser afetado pela pergunta que se fez. Então, o caminho para a não-pergunta (para a inocência de antes-da-pergunta, para a “inocência da criança ou do lobo”, nos termos do nosso texto) não é um caminho factível. Seria a política do avestruz, o tapar o sol com a peneira. Seria adotar um rito apotropaico de dar nomes fáceis a questões difíceis. Foi isso o que fez Freud a considerar os conteúdos do inconsciente como redutíveis a desejos reprimidos. Ou melhor, a “realizações de desejos reprimidos”. Baahhhhh. Isso é simplório como a ampla categorização de mamíferos, para abranger o homem, a baleia e o ornotorrinco. A pobreza classificatória de Freud é apotropismo e um hino à conveniência. Todos nós que observemos claramente nossos sonhos, veremos que eles transcendem de muito a esta fórmula de uma variável. Há sonhos que CORRIGEM NOSSOS DESEJOS, SEM QUE ISSO SEJA INTERNALIZAÇÃO DA CRÍTICA SOCIAL. Há sonhos que DESIDEALIZAM OBJETOS DE NOSSOS DESEJOS, DESFETICHIZANDO-OS, TORNANDO-OS, ASSIM, INDESEJÁVEIS OU AVERSIVOS (SEM QUE ISSO SEJA DESLOCAMENTO OU INVERSÃO PELA CENSURA). HÁ SONHOS QUE SÓ APRESENTAM IMPASSES PARA NÃO-DESEJOS, BECOS-SEM-SAÍDA, LABIRINTOS DE ACUAMENTO SEM NENHUM OBJETO-DESEJANTE À VISTA. Há sonhos sapiências que alinhavam uma série de elementos subliminares aos nossos sentidos para grandes articulações de raciocínios: imagéticos, narrativos, lógicos, numéricos. São sonhos de uma operacionalidade lógica subliminar. Alguns NOS CORRIGEM EM RUMOS ERRADOS DE PESQUISAS, CONTRARIANDO NOSSOS PRESSUPOSTOS, POR DADOS SUBLIMINARES QUE DEIXAMOS ESCAPAR. Há sonhos metafísicos, místicos, estéticos (pinturas, murais, poemas, esculturas realizadas em sonhos, com maestria que sobrepuja de muito a habilidade consciente). E uma gama enorme de sonhos: mítico-religiosos, numinosos sombrios, numinosos-epifânicos-redentores (“numinosos- luminosos”), há sonhos com diálogos improváveis (com animais, por exemplo; qual a realização de desejo aí embutida). E pelo menos mais uma centena de categorias. Assim, Freud foi um Insider definindo um padrão médio de moldura de sonhos para Insiders de desejo reprimido como ele mesmo. Nada mais grandioso do que isso. Nada menos, também.



Vejamos um dado interessante de pertinência X solidão ontológica. Fred, como líder carismático fundador de uma religião laica (típica compensação para um judeu ateu), fez lá seu clubinho de fiéis com anel e tudo. Mitos são coisas sérias. O sujeito que não lhes apreende o valor intrínseco (e os interioriza, sem querer ser o avatar a amortecer e interpretar seu impacto para o grupo, de forma messiânica), acaba assumindo a função de figura totêmica ou “Pater Familias”. Ou Pater Pneumatikos, o que é pior ainda.



Nesse trecho de Rosana Machado, tirado da Net, podemos ver a constituição do clubinho fechado de Freud, o grupo dos Zeladores da Pureza da Doutrina:


"Depois da dissidência de Jung, a mais importante do movimento, é criado, por sugestão de Jones, o “Comitê Secreto”, que serviria para preservar a doutrina de desvirtuamentos e onde cada membro jura o não questionamento dos princípios psicanalíticos publicamente. Para selar a união do grupo, Freud oferece um anel a cada um do grupo. Faziam parte do Comitê: Freud, Jones, Ferenczi, Rank, Abraham e Sachs. Mais tarde se juntaram a eles: Anton Von Freund e Eitington. Anna Freud, Lou Andréas Salomé e Marie Bonaparte também receberam mais tarde o anel do Comitê das mãos de Freud.


O Comitê existiu até 1927, quando Rank abandonou o movimento freudiano. Deste grupo, Jones era o único não judeu".


Grupo carismático-messiânico por excelência, com todos os seus viéses: um grupo iniciático-messiânico-político e ÉTNICO. O ateísmo de Freud ainda é messiânico e étnico. Cada membro jurava o não questionamento dos princípios psicanalíticos em público, para manter o “cerne da Doutrina”. Não parece coisa de Igreja?! Alguns se refugiam na psicanálise num ato compensatório de ressentimento contra a Religião Institucionalizada. E acabam caindo numa Seita Laica. O mesmo se pode dizer do Marxismo, não coincidentemente formulado por um judeu ateu com aspirações salvífico-messiânicas. Não importa qual nome se dá ao Messias: podemos chamá-lo de “Operariado”. Tanto faz.



Esse espírito de clã das seitas laicas, com seu Líder Totêmico, fez (e faz) muito estrago. E é pertinente falarmos disso aqui, porque estamos tratando da Culpa. Para os “vanguardistas” que pensam participar de um “pensamento renovador” mas, ao contrário de um Outsider maduro, sem cacife pra trabalhar seus símbolos SEM AVAIS, o líder totêmico ou Pater Pneumatikos acaba por exercer a força de sua autoridade, fazendo com que o sujeito se perca, uma vez que se vê alijado tanto do pensamento médio, quanto a “dissidência avalizada pelo líder e por seu grupo de fiéis mais restritos”. Essa subserviência abjeta, confundida com “fidelidade” é um funcionamento arcaico típico de religiões tribais e grupos totêmicos. A fidelidade a Hitler e a educação dos meninos alemães para as SS têm o mesmo cunho de lavagem cerebral. A diferença é que um é militarista, outro não.



Peguemos dois exemplos simples: Herbert Silberer. Psicanalista austríaco. Seu livro Problem der Mystik und ihrer Symbolik, publicado em Viena, em 1914, apresentava uma primeira interpretação psicológica da alquimia. Silberer estava interessado em estados hipnagógicos (aqueles entre o sono e a vigília, onde se pode encontrar muito mais coisas do que “desejos reprimidos e ou suas realizações”), além de um pesquisador das simbologias herméticas como trabalhadas e mantidas pelo Rosacrucianismo, pela Maçonaria e pelas diversas tradições simbólicas. Ele tinha sua própria idéia a respeito da interpretação dos sonhos: achava que além da camada de interpretação psicanalítica (basicamente de desejo X repressão) haveria outra camada mais reverberativa e profunda, de “interpretação anagógica”. Introversão sincretismo, símbolo-remetendo-a –símbolo, toda essa metodologia clássica à exploração introvertida fazia parte do arsenal e da argumentação de Silberer. “Excomungado” por Freud do âmbito de sua “ciência” (e da respeitabilidade de clã por ela auferida), o desvalido cometeu suicídio em 1923, aos 42 anos de idade. Como Outsider pouco maduro dependia desses avais. Eis sua fraqueza. E seu sentimento de culpa ligado à proscrição e ao não-pertencimento, a variável mais funda (fruto da solidão ontológica) de não cumprir o script social (no caso, o “script individual”) avalizado pelos outros. Ou pelo clã.




Van Gogh também sucumbiu, depois do árduo trabalho de anos. Gauguin nunca foi ignorado. Apenas fazia muxoxo porque queria vender seus quadros ao preço de Rembrandt ou Delacroix. Isso não é ser Outsider. Isso é jogar alto, presunçosamente, na barganha do mercado. Sucumbiu de sífilis, e não tirou a própria vida.



Essa culpa dos Outsiders que ainda precisam da respeitabilidade de suas honras e esforço pessoal perante o grupo ou clã (que não encontraram apoio interno suficiente) é a versão de CULPA que trago aqui. Muito mais funda e basilar do que “fazer frente à moral social” (ou a suas hipocrisias). Aqui, tem-se de fazer frente a uma expectativa social que inclui paradigmas, epistemologia, estética, ale dos valores “morais”. A Culpa de Silberer é um exemplo da culpa de um Outsider. O fato dele se inclinar a tantos grupos que abrigam seres desnorteados á margem dos simbolismos mais oficialmente aceitos (os grupos “esotéricos”) já é um sintoma de sua condição. Vimos o quanto Strindberg se rendeu (se “encontrou”) a toda a formatação metafísico-religiosa oferecida por Emanuel Swedenborg. William Blake era mais forte e sagaz. Tinha maior auto-suficiência emocional-conceitual. Depois de seguir Swedenborg por um tempo, descobriu que ser fiel à mitologia que emergia de seu próprio inconsciente era seu melhor caminho de Integridade. Esse é o método do Outsider por excelência. E essa caminho (com sua peculiaridade) é uma exigência ontológica e metafísica, volto a dizer. Jamais uma questão meramente “social”. William Blake pairava acima do risco de suicídio.



Outro caso paradigmático de pensador Outsider também esmagado pela desaprovação do Pater Familias/ Pater Pneumatikos foi Viktor Tausk, psicanalista e neurologista do grupo dos “pioneiros”. Seus interesses sobre a psicose e sua ponte com a arte, e de uma certa “máquina de influência” sentida pelos esquizofrênicos como agindo sobre eles à distância, bem como a leitura que ele deu a tais fatos (que ele mesmo deve ter experienciado assim, da mesma forma que “as máquinas de influência” – elétricas, magnéticas, cósmicas, demoníacas, angélicas, persecutórias- fazem parte de toda a trajetória do surto de Strindberg) encontraram tal repúdio e sabotagem por parte de Freud (e seus fiéis escudeiros) , que o fragílimo Tauk se suicidou em 3 de julho de 1919, com 40 anos de idade. Eis o senso de “eu não tenho nada a dizer que seja válido em si mesmo” que traduz a culpa de fundo, mais ontológica, do Outsider. William Blake diria: “Eu tenho muito a dizer, ainda que o percebam cento e cinqüenta anos após minha morte”. Eis a diferença.



Para não estender demasiadamente essa singela postagem sobre Culpa, a partir do outsider Romântico (mas englobando Outsiders pensadores que não estiveram á altura de suportar o “Fracasso Correto”), transcreverei aqui uma breve carta de Jung, escrita em 30 de janeiro de 1934 ao Doutor Bernhard Baur-Celio, professor de Filosofia no Seminário de Küsnacht-Zurique. O Doutor Bernhard suspeitava que Jung guardava alguns conhecimentos obtidos de alguma forma “misteriosa” (por misteriosa eu diria: autônoma, obtidos por via própria; imaginal, especulativa ou visionária; ok?!). Aqui vai a resposta de Jung ao seu inquiridor, bastante elucidativa do processo indagativo de qualquer pensador-artista-artesão Outsider que se preze.




Antes da Carta, há que se fazer um adendo. No meu ponto de vista, as realidades descortinadas por Jung são muito mais complexas do que as propostas pela Equação Freudiana. Por outro lado, Wilfred Bion, James Grotstein, Donald Winnicott e outros psicanalistas chegaram a níveis de compreensão do que se passa no Inconsciente que é bastante profundo e notável. Deixaram-nos bagagem para duas décadas de estudo meticulosos, se quisermos de fato acrescentar algo ao já-dito. Não os coloco no patamar dos Homens a Serem Seguidos. Não sou Seguidor. Jiddu Krishnamurti, sem doutrina formal, é mais sábio que todos eles juntos. A questão é que eles viabilizam operacionalizar questões cruciais ao entendimento humano do psiquismo. E é a isso que eu dedico o melhor de meu tempo e meus esforços cognitivos. Mas não são “heróis”. Jung, meio atordoado, meio embevecido com a amplitude do material que recebeu também se deixou ficar no papel de líder de seita, não levando pessoas ao suicídio, mas sendo bastante sacana com algumas discípulas, sobretudo. Um aproveitador nesse sentido. Para ficarmos em dois exemplos cito os nomes de Sabina Spielrein e Toni Wolff, como mulheres “sacaneadas” por Jung. Não o tenho por modelo de comportamento, nem por “super-homem”. Apenas um aplicado pensador dos conteúdos que se lhe propuseram ao longo de sua jornada existencial. Mas que não soube (ou não pôde) estar á altura ética desses conceitos. Aliás, essa idéia de super-homem Nietzscheana é apenas um contraponto à subumanidade que reluta apensar. Mas não um construto válido. Grandes homens não foram Jung ou Nietszche ou Schopenhauer (argh...), mas Francisco de Assis, Giordano Bruno, Sócrates. E Wilfred Bion é o psicanalista mais bondoso-e-eficaz no propósito que tomou para si mesmo. Melanie Klein era autocrata e tirânica. O mesmo se pode dizer de Freud, inclusive com sua piscanálise da própria filha, Anna Freud. Jung era um grande curioso. Pensador disciplinado. E um grande sedutor que se orgulhava disso. Essa sua grande falha de caráter.



Esclarecido o ponto que poderia dar margem a se considerar que “um devoto do guru X mete o pau no guru Y”, vamos à carta de Jung (que era intelectualmente honesto, mas emocionalmente ladino, quando se tratava de seduzir; não há mulher na jogada, por isso temos uma carta “sóbria”):



“Não gostaria de deixar sem resposta a sua “questão de consciência”. Falo evidentemente só daquilo que conheço e que posso comprovar. [Nota minha: não tenho nenhuma dúvida disso; por isso – e só por isso- considero os construtos junguianos dignos de apreciação cuidadosa]. Não quero perturbar a cabeça de ninguém com minhas suposições. Além disso, fiz experiências que são por assim dizer “indizíveis”, “secretas”, porque não se pode expressá-las corretamente e porque ninguém pode entendê-las (nem sei se eu mesmo as entendi mais ou menos), “perigosas”, pois 99% das pessoas me declarariam louco se ouvissem algo semelhante de mim, “catastróficas”, pois poderiam bloquear o acesso a um mistério vivo e maravilhoso, através do preconceito causado pela comunicação, “tabuizadas” [nota minha: tornadas “código sagrado”, numa alusão a Moisés, “tabulando o Sacro em Leis] porque são uma região numinosa [tradução para a expressão em grego usada por Jung] envolvida e protegida pelo “temor supersticioso dos deuses” [idem], como expressa muito bem Goethe:
“Caverna, a proteção mais profunda.
Leões vagueiam silenciosos –
Amigáveis ao nosso redor,
Lugar sagrado as honras
Santo tesouro do amor”.

[Fausto II, ato 5].



[Aqui cabe uma observação: Jung lia Goethe desde a adolescência e o Fausto serviu para ele como um interlocutor na paisagem imaginal que ele teve de enfrentar desde a infância: sonhos bastante precoces e impronunciáveis a seu pai, pastor protestante de convicções frágeis; Jung demoliria a psique do pai com seus questionamentos, e ele sabia disso; e os termos aplicados a tais vivências, como “indizíveis”, “secretas”, perigosas”, “catastróficas”, estão todos de acordo com aquele âmbito da atmosfera numinoso-sombria experienciada pelo Outsider: “o círculo interno, secreto-sagrado, do Indizível”; o primeiro e grande medo da loucura é o medo de não conseguir digerir esse circuito de percepções em si mesmo, uma vez que é um círculo-circuito “sem testemunhas”; achar, na História Universal, grandes homens que poossam fazer eco a essas questões inomináveis –como foi o caso de Goethe, para Jung; como foi o caso de Swedenborg para Strindberg – é um consolo, e uma “companhia vicária”; um parceiro imaginal com o qual se pode dialogar, até se estar suficientemente maduro para formular suas questões – algumas delas, ao menos – em linguagem plástica ou conceitual minimamente inteligíveis ao grupo social mais amplo].



E já foi dito demais – meu público poderia ser contaminado venenosamente pela desconfiança do “poetar” – o caminho mais doloroso do erro! [Jung queria ser reconhecido como pensador, e não como poeta; aliás, sua sensibilidade literária era bastante restrita; era mais fisgado pelos “temas” do que pela forma/ estilo; do contrário, teria se debruçado mais e melhor sobre poetas-pensadores; mas preferiu gastar seus neurônios com simbolismo e gravuras alquímicas, mandalas e muito material plástico-mítico: mitologemas, imagens recorrentes e arcaicas, mitologia comparada –temas onde os conceitos estão a reboque da imagem -; parte do fato de Jung ser considerado um escritor “profuso demais” – ou prolixo – se deve ao “jorro imagético-conceitual” dos seus textos; em contrapartida, Freud é muito mais didático e “elegante” do que Jung na exposição de seus pontos de vista].


Quem poderia falar de “credo” quando está sob a sua experiência [isto é, como que “engolfado por ela”, “encapsulado nela”], crendo no fenômeno terrível [expressão escrita em grego pelo erudito Jung..., rs rs rs ], quando sabe como é supérfluo “acreditar”, quando “sabe” mais do que o suficiente, quando a experiência o colocou inclusive contra a parede?


[Atentemos para as questões de Jung: ele não rastreia as experiências –de-exceção; ninguém tem o prazer em fazê-lo, mormente desde a infância; há um custo em vivenciá-las: um custo psíquico, sobretudo; um custo epistêmico; um custo de tensão relacional, dada a solidão das perguntas que a vida se lhe impõe; a vida se lhe impôs tais vivências, ele não saiu correndo a cata delas, como souvenires ou bijuterias... Capice?!].



Não gostaria de seduzir ninguém para a fé e, assim, tirar-lhe a vivência. [Ó grande sedutor, não te colocaste á altura desse nobre desejo... rs rs rs; malgrado tua “carta de intenções”, está cheio de junguiano devoto por aí...; deve ser “sede de ser liderado”, coisa da qual até Eric Berne estava ciente, além do mais profundo Erick Erikson]. Eu precisaria em grau máximo de minha saúde psíquica para manter-me firme naquilo que chamamos de “paz”; por isso, não gostaria de fazer alarde de minhas experiências. [Sim; você as filtrou e tentou organizar um “léxico” que fosse capaz de abranger a espinha dorsal e o sentido –inclusive teleológico, de telos, para que, não de Teos – das mesmas]. Mas uma coisa quero dizer-lhe: a chamada pesquisa do inconsciente revela de fato e de verdade o antiquíssimo e sempiterno caminho da iniciação. [É fato; todos os matizes de experiências autônomas assim-chamadas religiosas ou numinosas serão ali encontrados; muitas não confortam, nem engrandecem, ao contrário do que supõem os leigos e Insiders, que nunca foram constrangidos a fazê-las; boa parte dessas vivências HUMILHA quem as vivencia; a face terrível do anjo de Rilke é mais que retórica; o estupor de Jó é mais que retórico]. A teoria de Freud é uma tentativa apotropaica de soterramento como autopreservação diante dos perigos da “longa estrada”; somente um cavaleiro ousa “la queste” e a “aventure” [no original, em francês; Jung tem lá seus cacoetes lingüísticos, ou preciosismos de linguagem; mas vamos ao mérito de sua apreciação: concordo integralmente; a psicanálise vista como propiciadora de compromisso entre desejo – pulsões primárias –e princípio da realidade – cultura – nada mais faz do que dar uma ajeitada da inserção social – adaptação, em suma – do homem pulsional/ desejante em seu meio: sociedade, cultura; a psicanálise freudiana tem pouco a fazer com as questões fundantes e primeiras, pré compromisso social, as questões mítico-numinosas; porque, simplesmente, pouco sabem do numen – nada sabem, na verdade – e TEMEM O NUMEN].



Retomando, para avançar. Retomarei só a linha: A teoria de Freud é uma tentativa apotropaica de soterramento como autopreservação diante dos perigos da “longa estrada”; somente um “cavaleiro” ousa a questão e a aventura [traduzindo o preciosismo]. Nada está definitivamente soterrado – essa é a terrível descoberta de todo aquele que abriu aquela porta. Mas o medo atávico é tão grande que o mundo agradece a Freud que ele tenha confirmado “cientificamente” (que bastardia de ciência!, comentário de Jung) que nada foi visto atrás daquela porta. Não é apenas o meu “credo”, mas a experiência maior e mais decisiva de minha vida que aquela porta abre, uma porta lateral discretíssima que dá para uma vereda quase imperceptível e facilmente desconsiderada –estreita e confusa, porque poucos pés nela andaram – mas que leva ao mistério da transformação e renovação. É literalmente o

Intrate per augustam portam.
Quia lata porta et spaciosa via est
quae ducit ad perditionem
Et multi sunt qui intrant per eam.
Nam augusta porta et arcta via est
quae ducit ad vitam.
Et pauci sunt qui inveniunt eam!
Attendite a falsis prophetis que veniunt
ad vos in vestimentis ovium –
intrinsecus autem sunt lupi rapaces.

[Mateus 7, 13-15: ‘Entrai pela porta estreita, pois larga é a porta e espaçosa a senda que leva à perdição, e muitos os que por ela entram. Quão estreita é a porta e apertado o caminho que leva à vida, e poucos são os que o encontram. Guardai-vos dos falsos profetas. Vêm a vós disfarçados com peles de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes’]



[Comentário meu: ‘nada está definitivamente soterrado, é a terrível descoberta daquele que abriu a porta’. Eis a fala de Jung, perfeita para ferimentos e vivências de feridas precoces, e encontros precoces e massivos/ maciços com o Inconsciente; como isso sempre é incômodo – no mínimo por ser incomunicável, e por tirar o sujeito do circuito comunicacional médio, além da grandeza da própria vivência -, quem não viveu o fato –pela suspeita atávica do quanto deve ser difícil vivê-lo – prefere não admitir tal possibilidade; a leitura freudiana oferece um respaldo de conforto para os numino-fóbicos; em suma, é isso; por isso, sua total incapacidade de lidarem com feridas precoces graves, numinosidade desde a infância, temor pelo indizível, solidão ontológica – e não “tomei um pé na bunda da minha gatinha, doutor”, ou “da mamãe” – e toda essa gama de questões sérias; o que eu chamo de “questão analítica séria” são todas essas que nunca couberam –porque lhe escaparam – em nenhum filme de Woody Allen; Woody Allen, aliás, nada mais –e nada menos – do que o neurótico médio ocidental caricaturizado pelo excesso de ruminação; e ponto; nem roça a profundidade das questões do menor dos Outsiders...; falta-lhe a dimensão da profundidade do que é pré-relacional; falta-lhe verdadeira METAFÍSICA: a questão entre o ser e si mesmo, entre ele e a Criação, entre ele e o tempo, o Todo; e não entre ele “e seus pares”; porque se vive a dimensão metafísica só, e não lamentando o pé na bunda dos parceiros amorosos...].



Finalizando a carta junguiana:



O senhor deverá ter entendido porque prefiro falar de “scio” [raiz de ciência; de “saber”, de “estar ciente de”] e não de “credo” [adesão a; notas minhas] – porque não quero agir misteriosamente. [Mesmo com todo o cuidado sempre se será olhado com suspeita, de soslaio...]. Mas se eu falasse de um mistério vivo e real, isto pareceria infalivelmente que eu estou agindo misteriosamente. Somos misteriosos quando falamos de um mistério real. [Of course; claro que somos, Carl Jung...]. Por isso é melhor não falar dele para evitar a aparência má e confusa. Como toda a vida real, é uma viagem entre Cila e Caribdes.”





Carl Jung..., o Dr. Bernhard Baur-Celio entendeu perfeitamente. O mesmo posso dizer eu (entendo na carne). Espero que meu leitor também possa ter acompanhado com proveito.




Até a próxima.





Bibliografia sugerida:




Eissler, Kurt R. “Talent and genius”. New York: Quadrangle Books, 1971.


Eissler, Kurt. R. “Victor Tausk's Suicide”, International Universities Press , 1983


GOETHE, JOHANN WOLFGANG VON, “Fausto –Uma Tragédia”, São Paulo, Ed. 34, Dois Volumes, 2004/ 2007


Grosskurth, Phyllis. “O Círculo Secreto: O Círculo Íntimo de Freud e a Política da Psicanálise”, Rio de Janeiro, Imago, 1992.


Jung, Carl Gustav. “Cartas (1906-1945; vol I), Petrópolis: RJ, Ed. Vozes, 1999.


Jung, Carl Gustav. “Memórias, Sonhos, Reflexões”, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.


Jung, Carl Gustav. “The Red Book”, W. W. Norton & Co., 2009


Jung, Carl Gustav. “The Jung-White Letters (Philemon Series), Routledge, 2007.


Machado, Rosana. “Introdução a Freud”, PDF, Sociedade Paulista de Psicanálise.
Roazen, Paul. “Brother animal: the story of Freud and Tausk”. London, Allen Lane, Penguin Press, 1970


Silberer, Herbert. “Hidden Symbolism of Alchemy and the Occult Arts”, Dover Publications, 1971


Silberer, Herbert. “Problems of mysticism and its symbolism”, Kessinger Publishing, 2006













Marcelo Novaes

Interlúdio: Outras Flores

Enquanto os amigos aguardam a sequência das postagens conceituais...


E não é que querem acabar com as culpas, achando que assim estaremos bem?! Também teríamos de dar uma ajeitada na maldade dos sem-culpa: aqueles que matam mãe e pai. E a irmã, estupram. Mas é um projeto de afiadas unhas que, no entanto, não arranha. Um projeto vespertino de pujança. Para rosas e begônias.











Marcelo Novaes