
Como sinto que meus poucos leitores estejam com saudades de minhas incursões conceituais, prossigamos com o Outsider Romântico e com minhas não-tão-românticas observações. Como os meus textos dos blogs poéticos já estão praticamente todos escritos (apenas atualizo um por dia, ou subo textos antigos – de quando tinha dois leitores...), agora irei me dedicar a postar com mais assiduidade os textos dos blogs conceituais: ReInvenção de Jorge e este “O Olho”. Simhanada já está concluído.
A estratégia é sempre: recuar, para avançar. Então, retomamos um trecho de Colin Wilson sobre Hesse (“Steppenwolf”), para seguirmos em frente. Segurem-se nos barcos, timoneiros!
Collin Wilson (falando sobre o personagem principal, Haller, de “Steppenwolf”):
“Haller sabe que mesmo quando o Outsider é um gênio universalmente reconhecido, é devido à “sua imensa capacidade de renúncia e sofrimento, de indiferença pelos ideais da burguesia, e de paciência quando renegado àquele último grau de solidão que rarefaz a atmosfera do mundo burguês, transformando-a em éter gelado em torno dos que sofrem para se tornarem homens, aquela solidão do jardim do Getsêmani”.
Trocando em miúdos: o outsider realiza sua tarefa, com ou sem platéia. Ele não é alo-motivado, mas auto-motivado. Desempenha o que acha que tem de desempenhar com aplauso ou sem. Com público, ou sem. Van Gogh é um exemplo óbvio. “Fracasso Correto” é o nome que dou a isso, pela tacanha perspectiva social. Van Gogh FOI UM FRACASSO aos olhos da sociedade média de seu tempo. William Blake é outro exemplo clássico. FRACASO ABSOLUTO. Mas auto-motivado. Fez muito. Hoje, os retardatários fazem peregrinação ao seu túmulo, e procuram seus manuscritos, mas o rapaz motivou a si mesmo. Não dependeu dos apupos da massa. E por falar em Getsêmani, teríamos em Jesus Cristo, olhado pela rasa perspectiva média social, outro FRACASSO EXEMPLAR. Malgrado a excelência ética de sua trajetória. Como a questão da Ressurreição não pode ser levantada sem a estatística das testemunhas em jogo, aqui limito-me a sinalizar alguns dos outsiders “fracassados”.
“Fracasso correto” é o construto proposto para esses casos. Naturalmente que podemos pensar na sua inevitável (e forçosa) contraparte: “Sucesso Espúrio”. Aquele que é largamente aplaudido e apupado, porque fala o já-sabido, e explicita a “mediocridade média” (é pleonástico, eu sei; mas não fortuitamente) de seu tempo. E me digam se pode haver alguma coisa acima do medíocre na consciência média que apupa, uiva e aplaude o já-sabido, as velhas mesmices?!
Temos alguma coisa a pensar aqui: o sujeito auto-motivado (não por recompensas sociais, muito pelo contrário; não pelo “torrão de açúcar dado ao bichinho na caixa de Skinner”, não por “reflexo condicionado”...), te e si mesmo um diferencial: ele se move para além da cobrança (ou VAIA) DO GRUPO. Pense num artista ou pensador auto-didata que Vai todas as noites a uma biblioteca, sabendo que ao término de uma jornada de centenas de horas de leitura não receberá canudo algum, nem título de mestre, nem qualificação acadêmica que possa ser revertida em prestígio-remuneração, nenhum TÍTULO ou PRÊMIO, enfim. O sujeito que assim age o faz por crer no valor INTRÍNSECO de sua formaçõa e /ou de seu trabalho ou arte. E se ele mantém ritmo, regularidade, disciplina, sem que ninguém esteja vigiando se ele “bate o ponto”, e sem nenhuma garantia de “prêmio social” ou “reconhecimento” ao término da jornada, tal sujeito não tem as motivações médias do homem mediano rastreado por Skinner, ou por Freud (sim, porque este só concebe a sublimação pelo aval cultural, pelo prêmio auferido pela CULTURA; a sublimação aufere da cultura a substituição da gratificação instintiva). O Outsider é um homem sem garantias, e sem aval prévio. É tão incompreensível para Freud como para Skinner. Tão enigmático quanto um monge. Ou um santo. Por isso, a imagem do Getsêmani como metáfora dessa solidão ontológica do buscador ABSOLUTAMENTE SOLITÁRIO, E SEM AVAIS é absolutamente apropriada para se pensar em Van Gogh, como o seria para se pensar em William Blake (um de nossos próximos personagens). Como é obviamente apropriada para se pensar em Cristo. Três Fracassos Sociais. Três Corretos Fracassos, frise-se.
Esse mistério da auto-motivação, da auto-propulsão em relação ao trabalho de sua vida (seu Opus, diria Jung) é algo que precisa ser muito considerado pelos Insiders, que pouco o testaram ao longo a vida. Sempre havia uma mão ao fundo a acenar-lhes: “venha que a recompensa social (dinheiro, prestígio, admiração do sexo oposto) está te esperando logo ali/ aqui em frente”. Bahhhh. Quem pensa nesses termos, nada sabe de Outsiders e de seus desafios. E fazer incursões em terreno menos óbvio já sendo um insider bem aceito e conceituado (por exempolo, aventurar-se em carreira artística paralela tendo um belo escritório de advocacia consolidado) é “brincar de Outsider”. Não, de fato sê-lo. Freud foi um Insider. Nietzsche, um Outsider. Gauguin foi um Insider fazendo charminho nas Ilhas do Taiti, mas olhando para os acenos de Paris. Van Gogh foi um Outsider. Os primeiros correm riscos mas estão calculados na margem da segurança social. O segundo ignora protocolos e segue, a despeito da solidão. Sabe que, em última análise, os protocolos são guard-rails dos inseguros. Então, por trás da excentricidade de um Outsider deve haver grande firmeza de propósitos. Grande clareza de foco. Extrema diligência no uso de sua energia sem avais sociais que a catalisem. De onde o Outsider aufere tudo isso?! DE SI MESMO. Essa é a resposta.
Precisaremos explaná-la, claro. A estratégia é “recuar, apara avançar”. Assim sendo, retomemos um trecho do Steppenwolf já triplamente apresentado ao longo de nossas postagens, citado e sumarizado por Colin Wilson:
‘O nosso Steppenwolf... descobriu que.. na melhor das hipóteses, está apenas começando uma longa peregrinação em busca dessa harmonia ideal... Não, o caminho de volta à natureza é falso e não leva a lugar nenhum, só ao sofrimento e ao desespero... Todas as coisas criadas, mesmo as mais simples, já são culpáveis, já são múltiplas... O caminho para a inocência, para o incriado, para Deus, segue em frente, não para trás, não para o lobo ou a criança, mas sempre mais fundo na culpa, sempre mais fundo na vida humana... Em vez de reduzir o seu mundo e simplificar seu espírito, você terá de acolher o mundo inteiro em sua alma, custe o que custar.’
Wilson: “A última imagem do tratado lembra uma idéia de Rilke: o Anjo das Elegias de Duíno que, de sua imensa altura, pode ver e abranger a vida humana como um todo”.
Já citei em outras postagens o sonho numinoso de James Grotstein, e não é o caso de repeti-lo aqui. O leitor interessado pode ir com proveito às tags (bela versão digital do índices onomásticos ou temáticos). Basta aqui dizer que Rilke é outro outsider, de fato. Alguém que se guia por suas visões e certezas interiores, e não por avais sociais médios e pré-garantias. Todo outsider é um visionário. Todo outsider tem uma relação com o Inconsciente (chame a essa instância de Inconsciente ou não) muito acima da média, é mais introspectivo do que a média, necessariamente auto-observador e introspectivo no limite do plausível e tolerável. Além desse limite para os não familiarizads com essa quota de diálogo interno (geralmente com genes bem precoce; a propósito ler todas as minhas postagens com as tags: self encapsulado, ou encapsulamento do self).
Os meus leitores (dois ou três) estão à espera de que eu trate do tópico “Culpa”. Eu gerei neles (dois ou três, repito) essa expectativa. Mas agora devem estar coçando as orelhas e franzindo o cenho... Culpa... como começar a pretender falar em culpa a partir dessas premissas?! Certamente essa culpa será também mais profunda do que a culpa edípica... Não parece a culpa de quem teme não cumprir o “script social médio”, uma vez que há um “algo” que impele o sujeito a seguir em frente “a despeito de nenhuma garantia de afirmação/ realização social”. Bingo! A culpa dos valores sociais introjetados ( o tal superego tirânico ou arcaico, como Pai ou Lei internalizados) é uma dimensão muito rasa da culpa. Também falaremos dela, claro. Mas as exigências que impelem o Outsider são supra-sociais. E a ética, bem como a culpa são questões FILOSÓFICAS ou METAFÍSICAS. Repito: a ética é, em seu lastro mais funbdante e fundamental, uma questão METAFÍSICA, e não SOCIAL. Para o Outsider, essa questão PODE SE DERRAMARA PARA O SOCIAL, SECUNDARIAMENTE. ULTERIORMENTE. MAS, NA SUA ORIGEM, TRATA-SE DE UMA QUESTÃO METAFÍSICA. Por isso friso e frisei ( e nunca será o bastante reiterá-lo), que para os olhos do Insider (inclusive pensadores-insiders) todo Outsider é uma incógnita no mínimo tão séria como o monge genuíno. Não importa qual credo ele advogue. Muitas vezes um credo personalíssimo: o credo de uma pessoa só. A arte do outsider é original (porque originária de suas próprias fontes), bem como seu pensamento. Se ele não for um pensador, será um pintor original, ou bailarino original. Forçosamente, um excêntrico.
Que tipo de culpa isso traz?! Em primeiro lugar a culpa como halo de uma solidão ontológica fundamente ( e fundamentalmente) experienciada em si mesmo. “Todos somos sós”. O outsider não tem isso como um jargão de uso fácil, mas como “espinho na carne”. Ele sabe disso desde a infância. E conhece os solilóquios internos compensatórios a esse saber também desde a infância. Conhece monólogos internos, se for religioso conhece diálogos com Deus (muitas vezes temíveis) desde muito cedo. Conhee solidões específicas, difíceis de se apaziguar mais tarde com o “ter alguém por perto”: solidões COGNITIVAS (eu sei o que não é vulgar); solidões estéticas (eu quero apresentar aos outros o que não encontro parecido); solidões epistêmicas (eu quero indagar as coisas por um caminho considerado “não-plausível”, ou “estranho demais”). Aqui, nós temos uma culpa que é, tão somente, “halo de uma solidão”. E “halo de uma estranheza”, de uma funda percepção de não-pertencimento do grupo médio. A culpa por ser diferente. Mas, se o Outsider crescer, ele sabe que essa diferença é irredutível à “igualdade média”. Não se deixa de fazer uma pergunta já formulada, ainda que solitária. E não se deixa de ser afetado pela pergunta que se fez. Então, o caminho para a não-pergunta (para a inocência de antes-da-pergunta, para a “inocência da criança ou do lobo”, nos termos do nosso texto) não é um caminho factível. Seria a política do avestruz, o tapar o sol com a peneira. Seria adotar um rito apotropaico de dar nomes fáceis a questões difíceis. Foi isso o que fez Freud a considerar os conteúdos do inconsciente como redutíveis a desejos reprimidos. Ou melhor, a “realizações de desejos reprimidos”. Baahhhhh. Isso é simplório como a ampla categorização de mamíferos, para abranger o homem, a baleia e o ornotorrinco. A pobreza classificatória de Freud é apotropismo e um hino à conveniência. Todos nós que observemos claramente nossos sonhos, veremos que eles transcendem de muito a esta fórmula de uma variável. Há sonhos que CORRIGEM NOSSOS DESEJOS, SEM QUE ISSO SEJA INTERNALIZAÇÃO DA CRÍTICA SOCIAL. Há sonhos que DESIDEALIZAM OBJETOS DE NOSSOS DESEJOS, DESFETICHIZANDO-OS, TORNANDO-OS, ASSIM, INDESEJÁVEIS OU AVERSIVOS (SEM QUE ISSO SEJA DESLOCAMENTO OU INVERSÃO PELA CENSURA). HÁ SONHOS QUE SÓ APRESENTAM IMPASSES PARA NÃO-DESEJOS, BECOS-SEM-SAÍDA, LABIRINTOS DE ACUAMENTO SEM NENHUM OBJETO-DESEJANTE À VISTA. Há sonhos sapiências que alinhavam uma série de elementos subliminares aos nossos sentidos para grandes articulações de raciocínios: imagéticos, narrativos, lógicos, numéricos. São sonhos de uma operacionalidade lógica subliminar. Alguns NOS CORRIGEM EM RUMOS ERRADOS DE PESQUISAS, CONTRARIANDO NOSSOS PRESSUPOSTOS, POR DADOS SUBLIMINARES QUE DEIXAMOS ESCAPAR. Há sonhos metafísicos, místicos, estéticos (pinturas, murais, poemas, esculturas realizadas em sonhos, com maestria que sobrepuja de muito a habilidade consciente). E uma gama enorme de sonhos: mítico-religiosos, numinosos sombrios, numinosos-epifânicos-redentores (“numinosos- luminosos”), há sonhos com diálogos improváveis (com animais, por exemplo; qual a realização de desejo aí embutida). E pelo menos mais uma centena de categorias. Assim, Freud foi um Insider definindo um padrão médio de moldura de sonhos para Insiders de desejo reprimido como ele mesmo. Nada mais grandioso do que isso. Nada menos, também.
Vejamos um dado interessante de pertinência X solidão ontológica. Fred, como líder carismático fundador de uma religião laica (típica compensação para um judeu ateu), fez lá seu clubinho de fiéis com anel e tudo. Mitos são coisas sérias. O sujeito que não lhes apreende o valor intrínseco (e os interioriza, sem querer ser o avatar a amortecer e interpretar seu impacto para o grupo, de forma messiânica), acaba assumindo a função de figura totêmica ou “Pater Familias”. Ou Pater Pneumatikos, o que é pior ainda.
Nesse trecho de Rosana Machado, tirado da Net, podemos ver a constituição do clubinho fechado de Freud, o grupo dos Zeladores da Pureza da Doutrina:
"Depois da dissidência de Jung, a mais importante do movimento, é criado, por sugestão de Jones, o “Comitê Secreto”, que serviria para preservar a doutrina de desvirtuamentos e onde cada membro jura o não questionamento dos princípios psicanalíticos publicamente. Para selar a união do grupo, Freud oferece um anel a cada um do grupo. Faziam parte do Comitê: Freud, Jones, Ferenczi, Rank, Abraham e Sachs. Mais tarde se juntaram a eles: Anton Von Freund e Eitington. Anna Freud, Lou Andréas Salomé e Marie Bonaparte também receberam mais tarde o anel do Comitê das mãos de Freud.
O Comitê existiu até 1927, quando Rank abandonou o movimento freudiano. Deste grupo, Jones era o único não judeu".
Grupo carismático-messiânico por excelência, com todos os seus viéses: um grupo iniciático-messiânico-político e ÉTNICO. O ateísmo de Freud ainda é messiânico e étnico. Cada membro jurava o não questionamento dos princípios psicanalíticos em público, para manter o “cerne da Doutrina”. Não parece coisa de Igreja?! Alguns se refugiam na psicanálise num ato compensatório de ressentimento contra a Religião Institucionalizada. E acabam caindo numa Seita Laica. O mesmo se pode dizer do Marxismo, não coincidentemente formulado por um judeu ateu com aspirações salvífico-messiânicas. Não importa qual nome se dá ao Messias: podemos chamá-lo de “Operariado”. Tanto faz.
Esse espírito de clã das seitas laicas, com seu Líder Totêmico, fez (e faz) muito estrago. E é pertinente falarmos disso aqui, porque estamos tratando da Culpa. Para os “vanguardistas” que pensam participar de um “pensamento renovador” mas, ao contrário de um Outsider maduro, sem cacife pra trabalhar seus símbolos SEM AVAIS, o líder totêmico ou Pater Pneumatikos acaba por exercer a força de sua autoridade, fazendo com que o sujeito se perca, uma vez que se vê alijado tanto do pensamento médio, quanto a “dissidência avalizada pelo líder e por seu grupo de fiéis mais restritos”. Essa subserviência abjeta, confundida com “fidelidade” é um funcionamento arcaico típico de religiões tribais e grupos totêmicos. A fidelidade a Hitler e a educação dos meninos alemães para as SS têm o mesmo cunho de lavagem cerebral. A diferença é que um é militarista, outro não.
Peguemos dois exemplos simples: Herbert Silberer. Psicanalista austríaco. Seu livro Problem der Mystik und ihrer Symbolik, publicado em Viena, em 1914, apresentava uma primeira interpretação psicológica da alquimia. Silberer estava interessado em estados hipnagógicos (aqueles entre o sono e a vigília, onde se pode encontrar muito mais coisas do que “desejos reprimidos e ou suas realizações”), além de um pesquisador das simbologias herméticas como trabalhadas e mantidas pelo Rosacrucianismo, pela Maçonaria e pelas diversas tradições simbólicas. Ele tinha sua própria idéia a respeito da interpretação dos sonhos: achava que além da camada de interpretação psicanalítica (basicamente de desejo X repressão) haveria outra camada mais reverberativa e profunda, de “interpretação anagógica”. Introversão sincretismo, símbolo-remetendo-a –símbolo, toda essa metodologia clássica à exploração introvertida fazia parte do arsenal e da argumentação de Silberer. “Excomungado” por Freud do âmbito de sua “ciência” (e da respeitabilidade de clã por ela auferida), o desvalido cometeu suicídio em 1923, aos 42 anos de idade. Como Outsider pouco maduro dependia desses avais. Eis sua fraqueza. E seu sentimento de culpa ligado à proscrição e ao não-pertencimento, a variável mais funda (fruto da solidão ontológica) de não cumprir o script social (no caso, o “script individual”) avalizado pelos outros. Ou pelo clã.
Van Gogh também sucumbiu, depois do árduo trabalho de anos. Gauguin nunca foi ignorado. Apenas fazia muxoxo porque queria vender seus quadros ao preço de Rembrandt ou Delacroix. Isso não é ser Outsider. Isso é jogar alto, presunçosamente, na barganha do mercado. Sucumbiu de sífilis, e não tirou a própria vida.
Essa culpa dos Outsiders que ainda precisam da respeitabilidade de suas honras e esforço pessoal perante o grupo ou clã (que não encontraram apoio interno suficiente) é a versão de CULPA que trago aqui. Muito mais funda e basilar do que “fazer frente à moral social” (ou a suas hipocrisias). Aqui, tem-se de fazer frente a uma expectativa social que inclui paradigmas, epistemologia, estética, ale dos valores “morais”. A Culpa de Silberer é um exemplo da culpa de um Outsider. O fato dele se inclinar a tantos grupos que abrigam seres desnorteados á margem dos simbolismos mais oficialmente aceitos (os grupos “esotéricos”) já é um sintoma de sua condição. Vimos o quanto Strindberg se rendeu (se “encontrou”) a toda a formatação metafísico-religiosa oferecida por Emanuel Swedenborg. William Blake era mais forte e sagaz. Tinha maior auto-suficiência emocional-conceitual. Depois de seguir Swedenborg por um tempo, descobriu que ser fiel à mitologia que emergia de seu próprio inconsciente era seu melhor caminho de Integridade. Esse é o método do Outsider por excelência. E essa caminho (com sua peculiaridade) é uma exigência ontológica e metafísica, volto a dizer. Jamais uma questão meramente “social”. William Blake pairava acima do risco de suicídio.
Outro caso paradigmático de pensador Outsider também esmagado pela desaprovação do Pater Familias/ Pater Pneumatikos foi Viktor Tausk, psicanalista e neurologista do grupo dos “pioneiros”. Seus interesses sobre a psicose e sua ponte com a arte, e de uma certa “máquina de influência” sentida pelos esquizofrênicos como agindo sobre eles à distância, bem como a leitura que ele deu a tais fatos (que ele mesmo deve ter experienciado assim, da mesma forma que “as máquinas de influência” – elétricas, magnéticas, cósmicas, demoníacas, angélicas, persecutórias- fazem parte de toda a trajetória do surto de Strindberg) encontraram tal repúdio e sabotagem por parte de Freud (e seus fiéis escudeiros) , que o fragílimo Tauk se suicidou em 3 de julho de 1919, com 40 anos de idade. Eis o senso de “eu não tenho nada a dizer que seja válido em si mesmo” que traduz a culpa de fundo, mais ontológica, do Outsider. William Blake diria: “Eu tenho muito a dizer, ainda que o percebam cento e cinqüenta anos após minha morte”. Eis a diferença.
Para não estender demasiadamente essa singela postagem sobre Culpa, a partir do outsider Romântico (mas englobando Outsiders pensadores que não estiveram á altura de suportar o “Fracasso Correto”), transcreverei aqui uma breve carta de Jung, escrita em 30 de janeiro de 1934 ao Doutor Bernhard Baur-Celio, professor de Filosofia no Seminário de Küsnacht-Zurique. O Doutor Bernhard suspeitava que Jung guardava alguns conhecimentos obtidos de alguma forma “misteriosa” (por misteriosa eu diria: autônoma, obtidos por via própria; imaginal, especulativa ou visionária; ok?!). Aqui vai a resposta de Jung ao seu inquiridor, bastante elucidativa do processo indagativo de qualquer pensador-artista-artesão Outsider que se preze.
Antes da Carta, há que se fazer um adendo. No meu ponto de vista, as realidades descortinadas por Jung são muito mais complexas do que as propostas pela Equação Freudiana. Por outro lado, Wilfred Bion, James Grotstein, Donald Winnicott e outros psicanalistas chegaram a níveis de compreensão do que se passa no Inconsciente que é bastante profundo e notável. Deixaram-nos bagagem para duas décadas de estudo meticulosos, se quisermos de fato acrescentar algo ao já-dito. Não os coloco no patamar dos Homens a Serem Seguidos. Não sou Seguidor. Jiddu Krishnamurti, sem doutrina formal, é mais sábio que todos eles juntos. A questão é que eles viabilizam operacionalizar questões cruciais ao entendimento humano do psiquismo. E é a isso que eu dedico o melhor de meu tempo e meus esforços cognitivos. Mas não são “heróis”. Jung, meio atordoado, meio embevecido com a amplitude do material que recebeu também se deixou ficar no papel de líder de seita, não levando pessoas ao suicídio, mas sendo bastante sacana com algumas discípulas, sobretudo. Um aproveitador nesse sentido. Para ficarmos em dois exemplos cito os nomes de Sabina Spielrein e Toni Wolff, como mulheres “sacaneadas” por Jung. Não o tenho por modelo de comportamento, nem por “super-homem”. Apenas um aplicado pensador dos conteúdos que se lhe propuseram ao longo de sua jornada existencial. Mas que não soube (ou não pôde) estar á altura ética desses conceitos. Aliás, essa idéia de super-homem Nietzscheana é apenas um contraponto à subumanidade que reluta apensar. Mas não um construto válido. Grandes homens não foram Jung ou Nietszche ou Schopenhauer (argh...), mas Francisco de Assis, Giordano Bruno, Sócrates. E Wilfred Bion é o psicanalista mais bondoso-e-eficaz no propósito que tomou para si mesmo. Melanie Klein era autocrata e tirânica. O mesmo se pode dizer de Freud, inclusive com sua piscanálise da própria filha, Anna Freud. Jung era um grande curioso. Pensador disciplinado. E um grande sedutor que se orgulhava disso. Essa sua grande falha de caráter.
Esclarecido o ponto que poderia dar margem a se considerar que “um devoto do guru X mete o pau no guru Y”, vamos à carta de Jung (que era intelectualmente honesto, mas emocionalmente ladino, quando se tratava de seduzir; não há mulher na jogada, por isso temos uma carta “sóbria”):
“Não gostaria de deixar sem resposta a sua “questão de consciência”. Falo evidentemente só daquilo que conheço e que posso comprovar. [Nota minha: não tenho nenhuma dúvida disso; por isso – e só por isso- considero os construtos junguianos dignos de apreciação cuidadosa]. Não quero perturbar a cabeça de ninguém com minhas suposições. Além disso, fiz experiências que são por assim dizer “indizíveis”, “secretas”, porque não se pode expressá-las corretamente e porque ninguém pode entendê-las (nem sei se eu mesmo as entendi mais ou menos), “perigosas”, pois 99% das pessoas me declarariam louco se ouvissem algo semelhante de mim, “catastróficas”, pois poderiam bloquear o acesso a um mistério vivo e maravilhoso, através do preconceito causado pela comunicação, “tabuizadas” [nota minha: tornadas “código sagrado”, numa alusão a Moisés, “tabulando o Sacro em Leis] porque são uma região numinosa [tradução para a expressão em grego usada por Jung] envolvida e protegida pelo “temor supersticioso dos deuses” [idem], como expressa muito bem Goethe:
“Caverna, a proteção mais profunda.
Leões vagueiam silenciosos –
Amigáveis ao nosso redor,
Lugar sagrado as honras
Santo tesouro do amor”.
[Fausto II, ato 5].
[Aqui cabe uma observação: Jung lia Goethe desde a adolescência e o Fausto serviu para ele como um interlocutor na paisagem imaginal que ele teve de enfrentar desde a infância: sonhos bastante precoces e impronunciáveis a seu pai, pastor protestante de convicções frágeis; Jung demoliria a psique do pai com seus questionamentos, e ele sabia disso; e os termos aplicados a tais vivências, como “indizíveis”, “secretas”, perigosas”, “catastróficas”, estão todos de acordo com aquele âmbito da atmosfera numinoso-sombria experienciada pelo Outsider: “o círculo interno, secreto-sagrado, do Indizível”; o primeiro e grande medo da loucura é o medo de não conseguir digerir esse circuito de percepções em si mesmo, uma vez que é um círculo-circuito “sem testemunhas”; achar, na História Universal, grandes homens que poossam fazer eco a essas questões inomináveis –como foi o caso de Goethe, para Jung; como foi o caso de Swedenborg para Strindberg – é um consolo, e uma “companhia vicária”; um parceiro imaginal com o qual se pode dialogar, até se estar suficientemente maduro para formular suas questões – algumas delas, ao menos – em linguagem plástica ou conceitual minimamente inteligíveis ao grupo social mais amplo].
E já foi dito demais – meu público poderia ser contaminado venenosamente pela desconfiança do “poetar” – o caminho mais doloroso do erro! [Jung queria ser reconhecido como pensador, e não como poeta; aliás, sua sensibilidade literária era bastante restrita; era mais fisgado pelos “temas” do que pela forma/ estilo; do contrário, teria se debruçado mais e melhor sobre poetas-pensadores; mas preferiu gastar seus neurônios com simbolismo e gravuras alquímicas, mandalas e muito material plástico-mítico: mitologemas, imagens recorrentes e arcaicas, mitologia comparada –temas onde os conceitos estão a reboque da imagem -; parte do fato de Jung ser considerado um escritor “profuso demais” – ou prolixo – se deve ao “jorro imagético-conceitual” dos seus textos; em contrapartida, Freud é muito mais didático e “elegante” do que Jung na exposição de seus pontos de vista].
Quem poderia falar de “credo” quando está sob a sua experiência [isto é, como que “engolfado por ela”, “encapsulado nela”], crendo no fenômeno terrível [expressão escrita em grego pelo erudito Jung..., rs rs rs ], quando sabe como é supérfluo “acreditar”, quando “sabe” mais do que o suficiente, quando a experiência o colocou inclusive contra a parede?
[Atentemos para as questões de Jung: ele não rastreia as experiências –de-exceção; ninguém tem o prazer em fazê-lo, mormente desde a infância; há um custo em vivenciá-las: um custo psíquico, sobretudo; um custo epistêmico; um custo de tensão relacional, dada a solidão das perguntas que a vida se lhe impõe; a vida se lhe impôs tais vivências, ele não saiu correndo a cata delas, como souvenires ou bijuterias... Capice?!].
Não gostaria de seduzir ninguém para a fé e, assim, tirar-lhe a vivência. [Ó grande sedutor, não te colocaste á altura desse nobre desejo... rs rs rs; malgrado tua “carta de intenções”, está cheio de junguiano devoto por aí...; deve ser “sede de ser liderado”, coisa da qual até Eric Berne estava ciente, além do mais profundo Erick Erikson]. Eu precisaria em grau máximo de minha saúde psíquica para manter-me firme naquilo que chamamos de “paz”; por isso, não gostaria de fazer alarde de minhas experiências. [Sim; você as filtrou e tentou organizar um “léxico” que fosse capaz de abranger a espinha dorsal e o sentido –inclusive teleológico, de telos, para que, não de Teos – das mesmas]. Mas uma coisa quero dizer-lhe: a chamada pesquisa do inconsciente revela de fato e de verdade o antiquíssimo e sempiterno caminho da iniciação. [É fato; todos os matizes de experiências autônomas assim-chamadas religiosas ou numinosas serão ali encontrados; muitas não confortam, nem engrandecem, ao contrário do que supõem os leigos e Insiders, que nunca foram constrangidos a fazê-las; boa parte dessas vivências HUMILHA quem as vivencia; a face terrível do anjo de Rilke é mais que retórica; o estupor de Jó é mais que retórico]. A teoria de Freud é uma tentativa apotropaica de soterramento como autopreservação diante dos perigos da “longa estrada”; somente um cavaleiro ousa “la queste” e a “aventure” [no original, em francês; Jung tem lá seus cacoetes lingüísticos, ou preciosismos de linguagem; mas vamos ao mérito de sua apreciação: concordo integralmente; a psicanálise vista como propiciadora de compromisso entre desejo – pulsões primárias –e princípio da realidade – cultura – nada mais faz do que dar uma ajeitada da inserção social – adaptação, em suma – do homem pulsional/ desejante em seu meio: sociedade, cultura; a psicanálise freudiana tem pouco a fazer com as questões fundantes e primeiras, pré compromisso social, as questões mítico-numinosas; porque, simplesmente, pouco sabem do numen – nada sabem, na verdade – e TEMEM O NUMEN].
Retomando, para avançar. Retomarei só a linha: A teoria de Freud é uma tentativa apotropaica de soterramento como autopreservação diante dos perigos da “longa estrada”; somente um “cavaleiro” ousa a questão e a aventura [traduzindo o preciosismo]. Nada está definitivamente soterrado – essa é a terrível descoberta de todo aquele que abriu aquela porta. Mas o medo atávico é tão grande que o mundo agradece a Freud que ele tenha confirmado “cientificamente” (que bastardia de ciência!, comentário de Jung) que nada foi visto atrás daquela porta. Não é apenas o meu “credo”, mas a experiência maior e mais decisiva de minha vida que aquela porta abre, uma porta lateral discretíssima que dá para uma vereda quase imperceptível e facilmente desconsiderada –estreita e confusa, porque poucos pés nela andaram – mas que leva ao mistério da transformação e renovação. É literalmente o
Intrate per augustam portam.Quia lata porta et spaciosa via estquae ducit ad perditionemEt multi sunt qui intrant per eam.Nam augusta porta et arcta via estquae ducit ad vitam.Et pauci sunt qui inveniunt eam!Attendite a falsis prophetis que veniuntad vos in vestimentis ovium –intrinsecus autem sunt lupi rapaces.[Mateus 7, 13-15: ‘Entrai pela porta estreita, pois larga é a porta e espaçosa a senda que leva à perdição, e muitos os que por ela entram. Quão estreita é a porta e apertado o caminho que leva à vida, e poucos são os que o encontram. Guardai-vos dos falsos profetas. Vêm a vós disfarçados com peles de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes’]
[Comentário meu: ‘nada está definitivamente soterrado, é a terrível descoberta daquele que abriu a porta’. Eis a fala de Jung, perfeita para ferimentos e vivências de feridas precoces, e encontros precoces e massivos/ maciços com o Inconsciente; como isso sempre é incômodo – no mínimo por ser incomunicável, e por tirar o sujeito do circuito comunicacional médio, além da grandeza da própria vivência -, quem não viveu o fato –pela suspeita atávica do quanto deve ser difícil vivê-lo – prefere não admitir tal possibilidade; a leitura freudiana oferece um respaldo de conforto para os numino-fóbicos; em suma, é isso; por isso, sua total incapacidade de lidarem com feridas precoces graves, numinosidade desde a infância, temor pelo indizível, solidão ontológica – e não “tomei um pé na bunda da minha gatinha, doutor”, ou “da mamãe” – e toda essa gama de questões sérias; o que eu chamo de “questão analítica séria” são todas essas que nunca couberam –porque lhe escaparam – em nenhum filme de Woody Allen; Woody Allen, aliás, nada mais –e nada menos – do que o neurótico médio ocidental caricaturizado pelo excesso de ruminação; e ponto; nem roça a profundidade das questões do menor dos Outsiders...; falta-lhe a dimensão da profundidade do que é pré-relacional; falta-lhe verdadeira METAFÍSICA: a questão entre o ser e si mesmo, entre ele e a Criação, entre ele e o tempo, o Todo; e não entre ele “e seus pares”; porque se vive a dimensão metafísica só, e não lamentando o pé na bunda dos parceiros amorosos...].
Finalizando a carta junguiana:
O senhor deverá ter entendido porque prefiro falar de “scio” [raiz de ciência; de “saber”, de “estar ciente de”] e não de “credo” [adesão a; notas minhas] – porque não quero agir misteriosamente. [Mesmo com todo o cuidado sempre se será olhado com suspeita, de soslaio...]. Mas se eu falasse de um mistério vivo e real, isto pareceria infalivelmente que eu estou agindo misteriosamente. Somos misteriosos quando falamos de um mistério real. [Of course; claro que somos, Carl Jung...]. Por isso é melhor não falar dele para evitar a aparência má e confusa. Como toda a vida real, é uma viagem entre Cila e Caribdes.”
Carl Jung..., o Dr. Bernhard Baur-Celio entendeu perfeitamente. O mesmo posso dizer eu (entendo na carne). Espero que meu leitor também possa ter acompanhado com proveito.
Até a próxima.
Bibliografia sugerida:
Eissler, Kurt R. “Talent and genius”. New York: Quadrangle Books, 1971.
Eissler, Kurt. R. “Victor Tausk's Suicide”, International Universities Press , 1983
GOETHE, JOHANN WOLFGANG VON, “Fausto –Uma Tragédia”, São Paulo, Ed. 34, Dois Volumes, 2004/ 2007
Grosskurth, Phyllis. “O Círculo Secreto: O Círculo Íntimo de Freud e a Política da Psicanálise”, Rio de Janeiro, Imago, 1992.
Jung, Carl Gustav. “Cartas (1906-1945; vol I), Petrópolis: RJ, Ed. Vozes, 1999.
Jung, Carl Gustav. “Memórias, Sonhos, Reflexões”, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.
Jung, Carl Gustav. “The Red Book”, W. W. Norton & Co., 2009
Jung, Carl Gustav. “The Jung-White Letters (Philemon Series), Routledge, 2007.
Machado, Rosana. “Introdução a Freud”, PDF, Sociedade Paulista de Psicanálise.
Roazen, Paul. “Brother animal: the story of Freud and Tausk”. London, Allen Lane, Penguin Press, 1970
Silberer, Herbert. “Hidden Symbolism of Alchemy and the Occult Arts”, Dover Publications, 1971
Silberer, Herbert. “Problems of mysticism and its symbolism”, Kessinger Publishing, 2006
Marcelo Novaes