O Códice do Silêncio








Há 25 anos, um professor universitário pediu que seus alunos propusessem algumas polaridades a serem trabalhadas em termos de reflexão clínica. Dentre tantas possíveis ["Cultura-Natureza", "Trabalho-Lazer" - que pode ser "despolarizada" em certas culturas aborígenes, bem antes de Domenico De Masi falar em "ócio criativo" -, "Loser-Winner" - bela polaridade inspirada no ideário midiático do "poder de consumo", bem como fala corriqueira nos filmes americanos, desde aquela época -, etc, etc], eu lhe propus a seguinte: "Solidão x Diálogo com os símbolos da cultura". Como cada qual dialoga com os símbolos da cultura? Ecoando-os? [Isso é tão comum...]. Fazendo adendos e/ou contrapontos aos símbolos dados? Evocando parte da própria história [e simbolizando-a] como possíveis elementos dialogais a serem inseridos em variados contextos grupais? Desentranhando algumas dessas falas possíveis de silêncios e interdições vividas, além de viabilizar todos os "indizíveis" que são "as falas-ainda-não-faladas" no grupo/cultura de cada um? Algumas dessas respostas podem remeter ao que seja "arte" [não "eco", como mais-do-mesmo-repetido-em-linha-de-produção, tantas vezes tomado por "arte"] bem como ao que seja "terapêutico"/ "analítico" [descoberta-resgate de algumas dessas falas e sua inserção num circuito dialogal "efetivo"]. O que seria esta polaridade [Solidão "x" Diálogo com os símbolos da cultura] nos tempos ainda mais massificados de hoje, em cada área [/ função profissional] e na vida de cada um [/papéis sociais]?

Da minha pergunta original, surge um corolário de questões correlatas, propostas e perguntas: 1) uma definição seminal de arte e análise; 2) a questão daqueles que foram vitimizados por um ou mais ambientes no seu desenvolvimento: família, escola, igreja, erros médicos ou outros. Estes teriam de tentar inserir-se na cultura pela crítica do que viveram, e não por assentimento, uma vez que viram "a sombra" desses ambientes (de)formadores; 3) a questão dos que "desistiram do diálogo" e como isso se deu; 4) a questão dos que não conseguiram visualizar nenhum projeto em relação à cultura e suas instituições [por exemplo, nunca fantasiaram ter filhos ou casar, ou constituir família, pois se viram crescendo "apesar da família", e não com a ajuda dela]; estes, algumas vezes, desde a infância imaginaram "morrer jovens" [assassinados, doentes, "loucos", como quem "se quebra no meio do caminho"] e nunca projetaram sua inserção na cultura; 5) a questão do que está sendo comunicado num delírio, e para quem está sendo pretendida a comunicação [o destinatário]; 6) a questão da intimidade: do que seja intimidade no contato dialógico, que suprime o sujeito do solipsismo e da incomunicabilidade; 7) das possíveis fugas e substitutos a este contato efetivo e “íntimo”; compulsões e adicções costumam funcionar assim, nos casos de falência de intimidade na comunicação [sendo o sexo uma das adicções possíveis; clássica, aliás]. Essas e outras dezenas de questões são desdobramentos daquela formulação de há 25 anos.

Alguém poderia dizer [como disseram] que essas perguntas levariam “ao mais profundo abismo”. Talvez, ali já estejamos, e essas perguntas nos ajudem a situar-nos. Estar no profundo abismo sem sabê-lo será consolo para o néscio, ou para a espécie de ingênuo-malicioso [aquele que “finge não saber”, ou “assim prefere crer” no “não-sabido”]. Outros poderiam imaginar que tais perguntas seriam de uma circularidade tal [não estaríamos no Abismo ou no Deserto, mas no Labirinto] que seria de todo improdutivo fazê-las. Afinal, Marcelo, você as fez há 25 anos, e o que descobriu desde então?!

Em primeiro lugar, descobri o “como” de cada uma dessas questões. E alguma resposta para todas as perguntas enfileiradas acima, a partir da “pergunta principal”. Deve haver uma “pergunta seminal”, e quanto mais funda melhor. Afinal, se diluirmos as perguntas, diluiremos as soluções.

Suponha o leitor que esteja andando pela rua. Depara-se, então, com alguém falando sozinho: um “morador de rua” [a princípio, um “não-morador”]. O leitor se aproxima de tal criatura e o escuta murmurando números. Sim: uma lista aparentemente bizarra de números. Na solidão dialogada [ou no solilóquio em voz alta] deste não-morador há, curiosamente, números. O leitor interessado poderia pensar em aulas de matemática, em datas marcantes cifradas, em castigos numerados, no serviço militar, em algum resíduo deixado pelos “números”. Ou em qualquer outra coisa análoga às citadas acima. Alguém que se propusesse a ajudar este não-morador [inclusive de seu verbo: desabitado da própria palavra e na própria palavra] precisaria ir mais longe.

Imaginemos um estudante-estagiário de psicologia ou psiquiatra que entrasse num hospital psiquiátrico ou CAPS [Centro de Atenção Psicossocial], e se deparasse com um paciente que lhe proferisse insultos. Um inepto tomaria os insultos como “pessoais”. Mas eles seriam tão “pessoais” quanto os números declamados pelo não-morador de rua. Ainda que o termo impessoal possa soar anódino demais em relação aos insultos [eles podem se referir a algum conteúdo fantasmático, estar apontado para algum “ausente histórico concreto”], conferir-lhe “pessoalidade” no sentido interpessoal de um diálogo dirigido seria um equívoco ainda maior por parte do “hóspede” [/hospedeiro]. Afinal, o “visitante” tomou tão afoitamente o discurso para si mesmo?! Aqui fora dos hospitais e centros de atenção cometemos o mesmo erro, reiteradamente.

Outra simplificação grosseira seria imaginar aqueles que “desistiram do diálogo” [como citados no meu item 3), acima], como sendo os “fujões não-resilientes”, os meros “mudos acovardados” frente ao outro, os desertores sociais costumeiros. A coisa é mais séria. Os esquizofrênicos catatônicos também desistiram do diálogo, mas mantêm suas poses. Fixas. De estátuas. A esta altura do relato, o leitor já entende que estamos falando de coisas “costumeiras” [ou nem tanto, mas “encontráveis”], mas nunca “triviais”. Qualquer tentativa de reduzi-las à trivialidade seria não mais do que “impostura” por parte do [mau] intérprete. Assim, a dualidade proposta, solidão X diálogo com os símbolos da cultura, não é descabida, nem “insolente” [um cutucão desarrazoado e inútil no “Halo do Abismo”].

Tampouco se trata de algo tão simples como dizer “tal esquizofrênico pintou tal quadro, e ele remete a tais e tais temas arquetípicos”. Isso de nada vale, se não inserirmos esta pintura num diálogo efetivo com o outro e com o grupo social imediato ao paciente. Esta foi a crítica de Fauzi Arap quando participava de um trabalho com Nise da Silveira, na Casa das Palmeiras. Ressentindo-se da lacuna operacional entre o ver terapêutico nas tais pinturas e o não poder articulá-lo com o paciente, Fauzi se desparou com a impotência em comunicar seu desagrado à Drª Nise. Isso porque o dossiê que ele preparou para ser lido numa reunião de acompanhantes terapêuticos, com a presença da própria Drª Nise não pôde ser aberto e lido: seus gatos [seus=da Drª Nise] não saíam de cima da pasta de apontamentos e sugestões de Fauzi Arap, e a superstição [mal alicerçada no conceito junguiano de “sincronicidade”] fazia todo o séquito de idólatras permanecerem em silêncio, diante da omissão inepta, confortável e pusilânime da Drª Nise. O fato está bem relatado em seu livro autobiográfico “Mare Nostrum”. Um ótimo roteiro de alguém que teve insights inconscientes via ácido lisérgico [o próprio Fauzi] e age, inadvertidamente [e não “divertidamente”] como guia semi-cego ou “aprendiz de feiticeiro” a outros aspirantes à viagem. Sem dúvida, Fauzi não estava apto à amplitude do trabalho a que se propôs, mas a crítica à Nise da Silveira não perde nada de sua validade por isso. Respeitar gatos sobre dossiês, não os retirando de cima, é tão supersticioso como engolir pílulas de papel do Frei Galvão ou fezes de um Lama. Este é o aspecto idólatra [ou o viés idólatra], bastante comum, na postura de certos “devotos junguianos”, com relação à sua [não-]interação dos símbolos que clamam por interação inteligente. Quando ídolos tiverem pés de barro, devemos derrubá-los. Quando não tiverem, mas ainda assim forem “ídolos”, devemos cortar-lhes a cabeça. “O Culto a Jung”, de Richard Noll, deveria ser leitura básica de todo junguiano. Mas, assim como freudianos e lacanianos não leem “O Livro Negro da Psicanálise”, organizado por Catherine Meyer, os junguianos desperdiçam a oportunidade [educativa] de lerem Noll. Aliás, no “Livro Negro” há um capítulo que mostra [por cartas trocadas com Ferenczi] o quanto Freud sabia [e preferiu “fingir não saber”, conceitualmente falando] o quanto o pai de Daniel Paul Schreber era “um tirano doméstico”, e não um “pai excelente a ser emulado e admirado”. Um caso clássico de “covardia teórica”. As teses de Freud quanto ao homossexualismo latente na esquizofrenia paranoide por “admiração homossexual ao pai” [sic] teriam de ser terrivelmente [para Freud] problematizadas pelo próprio Freud se ele assumisse “tudo o que sabia”. Um caso de “desvio calculado do olhar” no tocante à construção teórica, como a fuga da Drª Nise da Silveira em abrir o “dossiê” de Fauzi Arap. “Os pássaros que aqui gorjeiam, também gorjeiam por lá”.

Há uma coisa interessante que minha pergunta seminal me revelou, com todo o seu corolário: os acomodados não fazem perguntas incômodas. E mais: temem fazê-las. É o tipo de pergunta que um Cristão Gnóstico faria à Ortodoxia Cristã, por exemplo. Eles vêem problemas, os interrogantes, e problemas tão fundos [o tal Abismo, provavelmente], onde os Ortodoxos temem mesmo o simples “olhar” [Cifra: “a luneta de Galileu”; “Não vi e não gostei”]. Eu entendo essa fuga: para perguntas muito fundas, não parece haver resposta. Ou, para ser mais preciso: não parece “haver consolo” na resposta. As pessoas fogem das respostas que trazem problemas. Exceto se [e isso é decisivo] “os próprios problemas singulares levaram-nas às perguntas incômodas”. Por problemas entendamos também: infâncias atípicas, vivências atípicas, dúvidas ontológicas fundas. O afã de Fauzi começou com indagações surgidas pela vivência com LSD. Mas há infâncias mais improváveis do que viagens lisérgicas.

Soraya [assim vou chamá-la] estava grávida, quando me procurou. Seu medo era morrer no parto. Havia um histórico de eclampsia na família. Eu viria a descobrir que também havia sua “morte simbólica”, no nascimento. O primeiro sonho que ela me trouxe falava de um laboratório de experiências biológicas. Ela e sua mãe estavam alisando a superfície de um réptil morto: uma cobra áspera e manchada. Alguns poderiam pensar num símbolo fálico. Outros, no endoderma, como tecido embrionário constitutivo. O que a cobra também ilustra muito bem: “um tubo digestivo que no chão se arrasta”. E mais: detecta terremotos e acidentes sísmicos antes de seus parceiros no reino animal, aqueles que têm melhores olhos, e que menos rastejam [têm, portanto, menos contato com o solo]. Eu olhei a cena, e me abstive.

Perguntei sobre a textura da cobra, sobre a sensação tátil que ela despertara no sonho [coloquei Soraya na posição tátil-sensível da própria cobra]. E ela desandou a chorar.

Contou-me de sua mãe colocá-la para cuidar dos irmãos menores, desde criança. Que certa feita, insatisfeita dela estar “atrasada” quanto a tarefas na cozinha [com sete anos de idade], a mãe jogou-lhe água quente nas pernas. Primeiro, a “aspereza da cobra” lembrou-lhe as bolhas pós-queimadura. Mas havia mais, muito mais. Ela correu da cozinha para o quintal, e a mãe lhe atirou uma faca que lhe atingiu as costas, e ela caiu. Foi socorrida pela vizinha. A mãe ignorou o ferimento que ela própria causara à filha. Soraya me perguntou se eu queria “alisar” seu ferimento nas costas [sua cicatriz: a memória gravada na epiderme, e talvez mais fundo], e eu lhe disse que não era necessário, porque eu já tinha “visto a ferida”.

Seu pai era agressivo e alcoólatra. Sua mãe acusava Soraya de ter “casado por sua causa” [seus pais forçaram-na ao casamento, após a gravidez]. Não é de se espantar que Soraya tivesse tanto medo de morrer no parto. Por outro lado, ela tinha uma ferida “embrionária” [“endodérmica”], uma “tentativa de assassinato”, que precisava ser “vista e comunicada”. Eis a necessidade do vínculo dialogal. E haveria outro vínculo que o sonho prenunciava: de sua mãe com a neta [sim, tratava-se de uma menina]. O sonho mostrava uma quadro de “reparação”: uma possibilidade de mãe se redimir enquanto avó. E foi assim que se deu, numa medida razoável. Nenhuma dificuldade no parto. E já se sabe que os hormônios da gravidez são protetores naturais contra os picos de ansiedade que deflagrariam “ataques de pânico”, por exemplo. O bom parceiro de Soraya, seu sonho inicial [e outros que se desdobraram], o vínculo terapêutico [sobretudo o meu olhar que não se desviara] foram elementos contributivos para uma boa resolução do ferimento infantil, no final das contas.

No tocante à solidão [frequentemente ligada a uma ferida primal, ou a muitas feridas primais-ontológicas], precisa haver um “vedor” do lado de fora. Alguém que veja tanto a ferida, quanto a pessoa que porta o ferimento.







Marcelo Novaes






Bibliografia sugerida:







Arap, Fauzi. (1998) Mare Nostrum. São Paulo: Senac.

De Masi, Domenico. (2001) O Ócio Criativo. Rio de Janeiro: Sextante.

Fiorillo, Marilia. (2008) O Deus Exilado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

Meyer, Catherine. (2011) O Livro Negro da Psicanálise. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

Noll, Richard. (1996) O Culto de Jung: Origens de um Movimento Carismático. São Paulo: Ática.