As Bases e a Moldura da Proscrição: Proposições Iniciais









A quantidade de indizíveis determinará a medida do encapsulamento do "eu" dessa criança, do encapsulamento do seu self.

Eu disse isso na primeira postagem deste blog. Isso deve ser guardado. Por “self” eu não entendo aqui [nem proponho] nenhum “termo esotérico”: tão somente um sentimento de “eu-mesmo” que subjaz à fachada que o sujeito [no caso, a criança] pode exibir [e, portanto, "escolhe-sem-escolha" exibir] ao ambiente. As postagens serão construídas de forma a que não se precise de nenhum “glossário”, nem que a pessoa se sinta tendo de ser iniciada ou especialista em qualquer coisa correlata para ir entendendo as postagens. A gradualidade da apresentação dos termos ao longo das postagens garantirá o entendimento de quem, porventura, descubra os ganhos em se empenhar.

Qualquer leitor que olhe o título [e subtítulo] deste blog verá o termo “proscrição” em destaque. A proscrição é a grande questão da primeira infância, que pode acompanhar o sujeito por toda a vida. Por muitas razões. A primeira delas: a pessoa, muitas vezes, não encontra ambiente [família, escola, igreja] onde possa colocar [ou ver esclarecidas] suas questões mais urgentes. Isso se dá com adultos, também. Mas aqui tratamos, principalmente, da gênese desse processo de “proscrição”. A proscrição é um processo. Isso é importantíssimo constatar. Suas raízes estão nas “brechas e lacunas do olhar e da aceitação do coletivo [sociedade, família, “repertório cultural”] a questões individuais”. Então, a primeira situação a ser destacada, no tocante ao Olhar Coletivo [ou Grupal-Imediato: lar, escola, igreja] é esta: a impossibilidade de ver [o repertório cultural não fornece bagagem suficiente para decodificar a situação daquele sujeito]. Pensemos, por exemplo, no “Homem Elefante”, personagem do filme de David Lynch de 1980 [“The Elephant Man”]. Temos um tipo de doença ou condição “de exceção”, para a qual o “olhar cultural” é absolutamente despreparado. Além do que [também pelo despreparo, mas não só], tal  olhar apresenta “má vontade” em relação ao “portador da diferença”. Estigma quer dizer marca e ferida. O estigmatizado é o marcado [e ferido] também pelo olhar do ambiente.

Então, essa é a primeira situação que faço questão de propor aqui: a possível lacuna no “repertório cultural” para olhar e acolher “o portador da diferença”. O sujeito que traz uma “condição nova/ outra” ao grupo. Essa “condição outra” é, forçosamente, um questionamento à “condição-mesma-dos-outros”: que é a “condição média”. Mesmo considerando-se as singularidades de cada qual. O quantum de singularidade do proscrito é algo que não foi assimilado e aceito pelo ambiente [casa, escola, igreja, espaço público ou privado].

Se “o portador da diferença” é, forçosamente, objeto de questionamento para o ambiente, ele o será ainda mais para si mesmo. Isso é o básico. E o mais importante: por falta de cúmplices [o que significa dizer, por falta de um “olhar empático”], este “portador da diferença” fará seu questionamento em solidão. Fará perguntas angustiosas [porque isoladas] de si para si. Essa é a gênese da proscrição e do ambiente interno que ela engendra para o proscrito: um ambiente de perguntas solitárias. Essas perguntas solitárias, invariavelmente, encaminham o sujeito para solilóquios-não-compartilhados-em-progressão. Além disso, como ele cria “elementos internos de observação de si mesmo” [um meta-observador que se avalia, tenta aconselhá-lo e/ ou o recrimina, pune, etc.: “vozes internalizadas”, enfim], esse sujeito “se divide”. Esse portador da diferença deixa de se sentir “inteiro”. Deixa de possuir aquele “sentimento de inteireza/ integridade” que o deixaria “confortável em si mesmo”. Não cresce incorporado e integrado. Cresce “cindido”. Suas cisões-em-série partem da simples de situação de que, agora, é um angustioso observador de sua condição anômala, um especulador solitário sobre tal condição, sujeito e objeto [um objeto anômalo e solitário, abandonado, diga-se de passagem] para si mesmo. Sujeito solitário com uma indagação existencial não-compartilhável e objeto abandonado pelo ambiente, tudo isso em si mesmo, em seu próprio ambiente interno. Esse ambiente se torna cindido, angustioso, sobrecarregado de solidão, “fantasmático” e sombrio. E essas perguntas, ao contrário da ênfase freudiana, não se referem tão especifica e prioritariamente sobre a diferença sexual que nos marca. Mas sobre outras diferenças. Sobretudo sobre diferenças mais bizarras.

Eu escolhi o exemplo singelo e emblemático do “Homem Elefante”, por ser um filme popular. E também por patentear uma condição óbvia de exceção. Disse que uma das primeiras razões clamorosas para a existência da proscrição [e, consequentemente, do “proscrito”] seria a “falta de repertório cultural” para se lidar com sua situação. Pois bem. Mas examinemos um pouco mais de perto tal situação...

“Há brechas e lacunas no olhar e na aceitação do coletivo quanto ao sujeito”, foi o que eu disse logo acima. Isso o empurra para um isolamento e um peculiaríssimo solilóquio angustioso [sem testemunhas ou cúmplices] sobre sua própria condição. Eventualmente, os de melhor sorte acharão algum interlocutor, quando em estágio já avançado de isolamento. Mais tarde, de forma não muito leal, o coletivo cobrará desse sujeito o fato “dele não aceitar a si mesmo”. Sim: ele deveria, antes de tudo, se aceitar. Os slogans pueris de nossos tempos dirão que “ele precisaria se amar para ser amado”, e outras balelas que tais. Mas vemos aqui, singelamente, os traços gerais [e um preliminar mapeamento] de sua “condição de base”: ambiente solitário, perguntas-sem-testemunhas sobre a própria condição, angústia, “sombras”. O que significa dizer: um ambiente interno “ensombrado/ assombrado”, saturado de medo, dúvida, não-clareza. Aliás, a única e basilar clareza do sujeito é saber que é “portador de uma diferença” e que por causa dela é “não-aceito”. Isso lhe está patente, desde o início. Os olhos dos outros o denunciam. O olhar do outro-mesmo-médio, que não precisou ser empurrado à solidão de ter de decifrar-se a si mesmo, tanto, tão solitariamente e tão cedo, não o compreende e aponta-lhe o dedo acusatório. Os proscritos [e os feridos narcísicos] têm todos, sem exceção [embora em graus variados], alguns elementos desse rol de questões existenciais em seu desenvolvimento precoce. Todos, repito. Sem exceção. Vamos enumerar, na tentativa de sermos didáticos, alguns elementos-chave presentes, um ou outro, em algum grau, na trajetória e constituição caracterológica desses indivíduos. Como a proposta é falar de "cada um deles" e "a cada um deles", os itens estão elencados no singular [cada um se achará "aqui" ou "acolá", em alguns dos itens]:

1) Ele se sabe portador de uma diferença.

2) É “não-aceito” por causa disso [prefiro dizer "é não-aceito" do que "não é aceito"; a “coloração da expressão” é mais forte].

3) O Olhar Coletivo denunciou para ele essa diferença.

4) Por causa disso, ele desenvolveu um mundo peculiar [e inimaginável para a condição coletiva média, frise-se] de solilóquios precoces, perguntas angustiosas e sem cúmplices [sem testemunhas] sobre sua própria condição.

5) Essas perguntas evoluem para “perguntas existenciais precoces” [sobre a razão da diferença, justiça/injustiça da vida, Deus e Castigo e coisas que tais], para uma “auto-observação angustiosa e cindida” e para uma “hipervigilância em relação ao ambiente” [“quando serei atacado?”; “serei ridicularizado mais uma vez?”, “o que estão falando ou pensando de mim?”, etc e tal].

6) Essa hipervigilância faz com que o sujeito aprenda, cedo [por razões defensivas] a captar nano-impressões do ambiente em relação à sua identidade e à segurança dele [dele=sujeito], a partir da aguda percepção da diferença do Olhar Coletivo sobre ele. Torna-se, então, um sujeito “sensível” a essas nano-percepções e acuradamente ciente de elementos ambientais, sobretudo os invasivos e evasivos.

7) Essa acurácia lhe é peculiar: um elemento a mais a se somar à sua diferença de origem.

8) Essa acurácia se estende a todos os elementos de esquiva, medo, evitação ambiental em relação às suas questões [não só condenação ou proscrição]; o sujeito “lê” no Olhar do Outro: “Eu temeria estar na sua situação, e desvio o olhar de você”. A evasão/ evitação é flagrada, além de invasão. [Como dito no item 6)].

9) Por ser um “especialista em desespero”, o ferido-proscrito enxerga, capta, infere o medo e o desespero do outro; mesmo quando este desespero é disfarçado em evitação, desdém, pouco caso aparente; o proscrito detecta a fuga, enfim.

10) O proscrito, dado seu recolhimento e solidão precoces, e o gênero de questão sobre si que é levado a fazer-se [e sobre a vida] tem uma introversão bastante distinta da Coletividade Média, e uma vivência onírica [e oniroide] mais dilatada(s): sonha mais, lembra-se mais dos seus sonhos, seus sonhos são mais vívidos e “peculiares”: bizarros, assustadores, surrealistas, persecutórios, “mágicos”, “místicos”, aterradores, etc.

11) Por essas mesmas variáveis de introversão/atenção e focalização no mundo interno, o proscrito se lembra mais de pesadelos e é mais suscetível a estar ciente de experiências hipnagógicas [aquelas que se dão entre o sono e a vigília].

12) Assim sendo, podemos dizer que as condições peculiares aos místicos, médiuns e xamãs [nas sociedades ditas primitivas] costumam se desdobrar a partir dessa moldura-de-proscrição.

13) Sim; estou afirmando que os elementos de atenção e ciência das nano-percepções ambientais + sutilezas do mundo interno e da Evitação Coletiva [uma das Faces da Sombra Coletiva] faz do proscrito um intérprete potencial dessa mesma Sombra Coletiva [tudo o que escapa à Cultura], nos moldes clássicos do místico, do médium, do xamã, e também do “outsider contracultural”, do crítico da cultura [aquele que se “insere pelo avesso”], e do “porta-voz do Excêntrico e do Oculto”.

14) Como é marcado pela imagem, mas também pela “marca e ferida decorrentes do Olhar Coletivo" [Olhar do Outro Externo], o ferido-proscrito desenvolve o relacionamento em termos Numinosos [sagrados] com o Outro-em-Si-Mesmo, sentido como Outro-Dentro-de-Si [Deus, Demônio, ambos e outras variantes intermediárias de Presenças Internas: os Numina, enfim]; por isso, é dado a insights ou “desvios percepcionais místico-religiosos", segundo a ênfase cultural e o contexto observacional.

15) Essa condição de ter a auto-imagem e identidade marcadas pelo Olhar Invasivo, Rejeitador e Reprovador [tudo ao mesmo tempo], somada aos tais relacionamentos internos maximizados e cindidos [já estando os externos comprometidos, por “isolamento do sujeito complementar ao repúdio-evitação dos outros”], faz com que a constelação interna do proscrito envolva muito mais do que a situação típica proposta no Mito de Narciso [ter de conhecer-se a fundo, sob pena de ficar fixado em si mesmo]. Por exemplo, a situação de distância irremediável do Objeto-Mundo sempre a lhe escapar da mão e da voz [a distância do Outro, e de não-poder alcançar seus objetivos em comunidade] também lhe marca fundamente a identidade. E essa situação, além de figurada no mito de Narciso, também pode ser melhor explanada em Tântalo. A situação do proscrito inclui o drama de Tântalo. É, assim, Narcísico-Tantálica, ou "tantalizante".

16) A situação das cisões internas [“pedaços de eu observando e zelando por outros pedaços secretos e ocultos do eu”] também o coloca na “condição do pulverizado por Deus” [pelo “Olho Vígil de Dentro”]. Essa seria, por exemplo, a situação prometeica de ser pulverizado [=bicado pela águia, ad aeternum] por trazer um “fogo solitário à terra dos homens comuns”.

17) Seria essa, também, a situação dos Maruts pulverizados por Indra desde o útero [da deusa Diti], por “rivalidade fálica a priori” por uma “diferença/superioridade suposta” [algo mais sério e anterior ao Édipo Clássico, que inclui o Édipo e lhe subjaz; isso seria algo como uma "complexo de Laio anterior ao Édipo, constituindo-o, por pulverização-castração desde  o ventre; portanto, desde antes do nascimento"].

18) Seria, ainda, a situação de Jó sendo pulverizado pelo conluio Jeová-Satanás, segundo os moldes da narrativa Antigo-Testamentária [ou verotestamentária, como preferirem].

19) Assim, as condições de Tântalo, Prometeu, Jó, dos Maruts [entre outras mais, como também a “Justiça Trágica, entendida como Nêmesis”, que ainda veremos...] fazem parte da “condição do proscrito”, tanto quanto o mitologema de Narciso.

20) Para fazer justiça à Tragédia Pessoal do proscrito temos, então, de enxergar toda a constelação de seus impasses “em bloco”: precisamos ver o quadro todo. Só assim poderemos, efetivamente, ajudá-lo.

21) Isso porque, este quadro todo coloca todo proscrito numa situação ímpar que é, ao mesmo tempo, de isolamento social, “solidão cognitiva” [“os outros não sabem o que eu penso, nem veem o que eu vejo”], culminando numa precoce e funda “solidão ontológica” [“o mundo nada sabe de mim, nem saberá”].

O Outsider ou Proscrito mais sério [“o ferido narcísico desde a origem”] apresentará muitos dos traços desse quadro que apresentei, senão todo  ele. Ocorre que há pessoas que gravam “feridas narcísicas” numa trajetória Edípica de não-proscrição, mas de exclusão edipiana [“na intimidade de nós dois, papai e mamãe, você esta excluído, meu caro”; o que é diferente de ser privado do olhar-espelho de qualquer um dos dois!] São feridas à identidade menos precoces e menos maciças, num quadro de desenvolvimento “comum”, edipiano. Essas serão pessoas com traços narcísicos, em meio a um perfil de neurose média [“Edípica”: rivalidade, disputa, competição social e ânsia pulsional; não “encapsulamento do self”]. O “encapsulamento do self é que define o proscrito e o ferido narcísico de fato, segundo minha proposição a ser extensamente desenvolvida. Esses últimos não são Outsiders. E não conhecem a proscrição in totum: maciça e massiva. Para tais sujeitos, alguns elementos desse quadro parecerão familiares; outros parecerão sui generis. Levemente “captáveis” [ou “passíveis de serem intuídos”].

Tendo falado do Homem Elefante como emblema para início de discussão, lembro a todos o seguinte: pesquisas feitas em escolas públicas demonstram que os principais preconceitos das crianças e de seus pais recaem sobre “portadores da diferença” básicos: deficientes físicos e mentais. Basta um lábio leporino, o fato de ser manco, corcunda, vesgo, anão, usar óculos de grau muito forte muito cedo, ser surdo, ter um déficit cognitivo moderado, ser magro-raquítico, obeso [sem falar, óbvio, em condições como paralisia cerebral, Síndrome de Down e outras...] para que pais e crianças prefiram “não ter aquele diferente por perto”. Por isso falo também de má vontade, e não só de “insuficiência do repertório cultural”. Aqui, estamos no “raciocínio-sem-raciocínio”: no sentimento atávico dos mamíferos de “aceitarem os sãos por perto”, e proscreverem os “menos sadios”. Outras variáveis são: local de origem [variável étnico-territorial: “eu vim do interior, eu vim da Bahia, eu vim do litoral”], onde mora [status dentro da comunidade próxima; “eu venho da favela”, “eu venho do cortiço” ou, ao contrário, “só ele vem da rua dos bacanas”], idade [muito mais novo ou mais velho do que a média da classe]. As variáveis de raça e gênero [cor da pele e comportamento afetivo-social] vêm depois desses todos, no rol da prioridade dos preconceitos. Sobretudo quando pensamos em crianças e seus pais. [Confiram no Google pesquisas sobre preconceitos em escolas públicas].

Assim sendo, podemos entender que, em nosso “raciocínio de mamíferos” [aparentemente escravos da Lei Darwiniana da Evolução do Mais Forte], ainda se tente validar atos como o incêndio de um índio que dormia [ato impetrado por adolescentes de classe média alta] como sendo uma “brincadeira” para se assustar um “mendigo” [os pais dos garotos tentaram suavizar a maldade do ato com tal “álibi jocoso-inocente”...]. O sujeito distinto, na nossa sociedade, é estigmatizado, na perspectiva [darwiniana] de “ser um perdedor”. [“You’re a loser, man”...]. E “perdedores” podem [devem?] ser caçados. Ou queimados. Que os leitores dessa postagem lancem seu olhar de empatia para os Homens Elefantes, bem como para as simples crianças “diferentes”.








Marcelo Novaes


Filme sugerido: O Homem Elefante [“The Elephant Man”] de 1980. Dirigido por David Lynch e estrelado por Anthony Hopkins, John Hurt, Anne Bancroft e John Gielgud, relata a história do inglês John Merrick (1862-1890), portador de uma doença que provocou terríveis deformidades em 90% do seu corpo.